Happy hour

Olhava para a amiga sentada do outro lado da mesa e a imagem se dividia e fugia, se duplicava. Tentava focar e fazia força para enxergar apenas uma amiga, mas ela era duas. Tudo ao redor estava em movimento, as risadas do grupo ao lado participavam na dança de imagens, nada parecia ser de verdade, desconfiava se aquele momento estava mesmo acontecendo. Parou de olhar para a amiga e focou no copo de cerveja, ainda cheio, que também insistia em se transformar em dois, deu mais um gole e o celular tremeu no bolso; mensagem de Gabriel. Não pensar nele, piada, ele está sempre aí.

Tô cansada, vou pra casa, tá tarde. Mentiu, sabia que não teria apoio. Tchau. Se cuida, toma essa garrafinha d’água inteira antes de dormir. Pode deixar. Foi de metrô, entrou no vagão e sentou no banco de lado, gostava de sentar nesta posição, em horários como aquele era vazio e conseguia se ver no reflexo no vidro da janela oposta: sempre achava que aquela não era ela mesma, mas ali viajava outra pessoa bem mais interessante. Não a encarava, dava umas espiadas; era péssima em olhar de volta no olho, temia que entendessem como flerte. A voz ao microfone alertava para os passageiros não se descuidarem dos seus pertences; a gravação normal não funcionou e quem falou foi uma voz grã-fina, chamou a atenção, digna de rádio, deveria ser de um galã que gostava de música clássica. Mas que microfone bom, não tinha o chiado típico de metrôs e aviões. Coitado, trabalhando a essa hora, falando estações no transporte público. Se bem que seria bom ter um trabalho assim, ficar indo e vindo de um lado para o outro pela cidade, sozinha na cabine.

Desceu na estação final e olhou para o relógio-termômetro que marcava vinte e cinco graus; uma noite de verão que pedia um copo gelado, por isso os três gins-tônicas antes de ir para o bar. Os batimentos do coração acelerados depois de subir a escadaria que desembocava na rua, sem nenhuma brisinha, pontadas esporádicas na cabeça, e o suor entre os seios, nas virilhas, na nuca; os óculos embaçaram, soltou pequenos assopros direcionados à testa. Andou duas quadras e chegou: o prédio antigo, sem porteiro, sem portão, interfone na parede com um banco de madeira embaixo. Quem sentava ali? Sentou, tomou o último gole d’água e asas enormes fizeram um vento inesperado na sua cabeça; o bicho pousou nas costas do banco de madeira, pertinho dela. Ela gritou e pulou, levantando do assento. Encarou o pássaro, o que você quer? Era uma coruja que olhava dentro dos olhos dela, e que, imediatamente, os desviou para baixo, com vergonha da ave. Foi se afastando, chegou ao meio fio e desequilibrou, resolveu sentar no chão, meio torta, para poder ficar de frente e não tão perto, dificultando um possível ataque de bicadas na cabeça.

Aquilo deveria ser alguma brincadeira do universo. Naquela manhã, na escola em que trabalhava como assistente, a  dondoca da mãe da loirinha do terceiro B resolveu levar a coruja da sogra – não que a sogra fosse uma coruja, até era, mas a senhora glamurosa, portadora de uma esmeralda no pescoço, apresentou a coruja de estimação para que os alunos (e ela) conhecessem o pássaro e suas particularidades. Ideia imbecil. Realmente os drinks da noite tinham sido merecidos: interagir com o bicho e ainda se mostrar valente para as crianças; justo ela que morria de medo de animais, tinha desconfiança deles, esses serzinhos que podiam ter qualquer tipo de atitude. Bem que a diretora poderia me promover, agora até de corujas sei, sem contar o autocontrole, a chefa nem percebeu o pavor que as penas me causam.

A coruja, símbolo da sabedoria, não deve ser tão irracional: talvez a chegada aqui nesse banco de madeira tenha sido, sim, planejada para o ataque. Se a escola não fosse tão longe e o pescoço da ave fosse um pouco mais escuro, poderia ser a mesma que conhecera mais cedo. Poderia, porque esses seres são caçadores tenazes, escolhem pequenos mamíferos – menores do que ela, mas ela era bem mignon – conseguem se camuflar para a ação, e estava bastante escuro, o que poderia estar confundindo a cor das penas. Melhor não encarar, mesmo. E nem pensar em voltar para o banco. Pegou o celular; uma mensagem para o Gabriel abrir a porta e entrar correndo no prédio, pronto. Sem sinal. Calma, deve ter dado algum erro, desligou e ligou, nada, sacudiu, nada.

Apoiou as mãos no chão e se levantou num impulso, de frente para a co-ru-ji-nhaaaa, bonitinhaaaa, vai embora daqui, vai? Aqui não tem nada para você, não pense em mim, não, minha carne é sem graça, sou vegetariana. Caiu na risada. Como ninguém, além do Gabriel – que aparecia somente em situações de tédio (dele), de tesão (dele), de problema com parentes (dele), ou de fim do limite do cheque especial (dele) – se interessava por ela? Queria tanto viver uma história apaixonante que pudesse contar para os futuros filhos e netos (ainda) imaginários, ao invés de viver os caprichos de um panaca.

Os devaneios da sonhadora foram interrompidos por um berro daqueles, de explosão; a sogra da metida a besta tinha avisado que as corujas gritavam, mas ela não tinha acreditado. A ave fazia aquilo para proteger os filhotes indefesos. Ali, aparentemente não havia nenhum ninho, talvez embaixo do banco. Aplicou o método que os guardas-florestais canadenses orientavam, no caso de um visitante de algum parque ecológico se deparar com um urso: foi caminhando lentamente para trás, sem dar as costas para o bicho. Sabichona, uma partidona – é esse o feminino de partidão?

Estava no meio da rua, na sua escapada, quando uma bicicleta ding-dongueou o sino-buzina e ela, ao invés de continuar a andar mais rapidamente, estancou o pé. O ciclista, por sorte, conseguiu brecar a tempo. Sai da rua, maluca! Falou com voz de grã-fino. Ela ficou parada; era a voz do metrô. Ele não tinha nada de finesse, muito menos de galã, mas como tinha estilo: usava um moletom estampado com pequenos unicórnios glitterizados, uma calça de couro preta, tênis tinindo de tão novos.

Você não é como eu imaginava, achei que chegaria em um cavalo. Você é really crazy, baby; nos conhecemos? Sim, não; conheço sua voz. Do metrô? É. Eu nunca falo, mas hoje é sexta, resolvi fazer a diva. Desataram a rir. A coruja, esquecida, chamou a atenção berrando novamente. Calma, bicha! Não vamos aí te incomodar. A ave saiu do banco e começou a sobrevoar em frente à porta do prédio. O maquinista-locutor pegou no braço da professora-aprendiz e foi indo para o outro lado da calçada. Vem cá, doida, você no meio da rua não dá muito certo. Ela encostou na manga brilhante da roupa dele e deixou ser levada; sentaram na calçada, um ao lado do outro, bem encostados. Tô com medo. Da coruja? De tudo. Calma, mas o que você está fazendo aqui? Tentando entrar naquele prédio. O boy tá lá? Tá. Vamos dar um jeito. Vamos.

E ficaram ali dando um jeito, fazendo nada, apenas assistindo aquele animal que frustrava a noite. Estava decidida: não precisava subir.

Foram interrompidos pela luz do corredor do prédio se acendendo e a porta se abrindo: saiu de lá uma madame que chamou a atenção por estar usando um vestido decotado, que deixava à mostra o colo enrugado, bronzeado artificialmente, ressaltado por uma esmeralda reluzente e um chapéu preto de abas largas, que escondiam os fios dourados contrastando com o breu da noite. Logo atrás dela o Gabriel.

A professora-assistente-semiatropelada abriu a boca e, como um ninja, o maquinista-ciclista-locutor-divo tampou a boca dela, a tempo de não sair nenhum som. Observaram a cena de camarote: a coruja protetora pousou no chapéu da madame delicadamente, e em câmera lenta, fazendo parte do look. Gabriel fez um carinho na penugem dela e desceu as mãos para o rosto da senhora, tirou os cabelos intrometidos que atrapalhavam as bochechas, foi passando uma das mãos para a nuca dela e a outra desceu pelo seio siliconado até pegá-la pela cintura, aproximar os corpos e tacar-lhe um beijo, cheio de línguas e lábios molhados.

Um carro preto encostou, a madame e a ave entraram no banco traseiro, o automóvel arrancou, deixando Gabriel sozinho, que logo digitou a senha e entrou no maldito portão, sem olhar para nada.

A boca da traída fora destampada sem emitir nenhum som e o maquinista a abraçou. O celular que estava na mão dela deslizou dos dedos e se espatifou, caindo dentro do bueiro. Ela o abraçou com mais força.

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