Hello, Goodbye

Para ler ouvindo Hello, Goodbye dos Beatles: Play!

Minhas mãos continham riscos vermelhos profundos de tanto tentar arrancar a etiqueta da calça de moletom cinza estonado, não conseguia tirar o papel gigante, mas não queria que minha mãe berrasse que eu estava atrasada para o primeiro dia. Meti a calça do jeito que estava, coloquei os tênis, dando os laços em cada pé com cuidado, com um nó por cima, não podia correr o risco de tropeçar. Em cima da tinta do desenho de uma vaca feliz do meu blusão, ajeitei a sacola de polietileno branca com o símbolo do leão vermelho à tiracolo. O capuz ficou repuxado por causa da sacola, apertava o meu pescoço e o papelão da etiqueta começava a coçar minhas costas e meu bumbum, ignorei, estava sentindo uma mistura de dor de barriga boa e uma louca vontade de rir; acho que deveria ser felicidade.

Quando eu via alguém andando com esse tipo de sacola na rua me sentia diminuída, aquelas pessoas poderiam compreender o mundo muito melhor do que eu; elas poderiam cantar qualquer música, ver qualquer filme, abrir qualquer programa de computador assim, sem mais nem menos. Eu sabia algumas palavras: hello, good morning, goodbye, e é claro que eu também achava que cantava todas as músicas que tocavam quando estava indo para a escola, eu tomava fôlego e fazia uns sons enrolados com minha língua, mas não sabia do que se tratavam

Eu estava pronta, mas alguma coisa a ver com uma ligação da minha avó bem na hora de sairmos, atrasou tudo e tivemos que voar pela Avenida Angélica. A sacolinha batia nos meus joelhos e os lápis dentro do estojo de metal tilintavam. Eu queria ter ido de carro para praticar o algumas palavras antes de chegar, mas estávamos lá naquele cooper.

Perguntei sobre o que tinha sido o telefonema, ela disse que nada. Duvidei. Perguntei se ela tinha certeza. Ela disse que sim. Perguntei: mesmo? Ela berrou: fica quieta e anda mais rápido. Andei. E não é que o tênis desamarrou? Não sei por que eu faço tudo por você, nem amarrar seu tênis direito você consegue! Ela puxou tanto o cadarço, fazendo movimentos rápidos, pronto, é assim que se faz, e o meu pé apertou, mas eu que não ia falar mais nada.

Chegamos atrasadas. Rapidinho uma mulher alta falou good afternoon, pegou na minha mão e fui absorvida pelo cheiro de panetone, pela iluminação clara, pelo chão de mármore branco, pelos corrimões dourados com gradezinhas pretas. Uma mansão! Toc-Toc na porta e ela estava lá, como eu queria, minha Teacher: uma saia preta reta, uma camisa branca, sapatos de salto (!), cabelos loiros presos num coque baixo, um óculos com armação redonda. Os lábios com batom sorriram. Come in! Hein? Entra! Soltei minha mão da moça do good afternoon e fui caminhando lentamente até sentar numa carteira – era carteira mesmo, aquelas que a cadeira é grudada na mesa – que eu nunca tinha visto. Me espantei também que as carteiras ficavam em forma de “u”, não eram fileiras. Nossa.

Sentei, senti a etiqueta coçando muito, uma gota de suor caindo da minha cabeça, o pé latejando, um remexido dentro da barriga. A Teacher começou a falar, falar, falar, eu não entendia bulhufas. Mas aos poucos fui acalmando, olhando para as outras meninas e outros meninos, notando o carpete cinza, a lousa branca (!), os avisos, aquele cheiro de natal. Tanta excitação que parecia natal mesmo.

A aula transcorreu tensa, mesmo que eu me acalmei e estava felicíssima, não consegui relaxar um nada. No final, a Teacher disse que como a escola era britânica, além de aprender a língua, ela também queria ensinar sobre a cultura da Inglaterra, então vamos escutar Hello, Goodbye dos Beatles, uma banda inglesa, sabiam?

Quase morri, ela colocou a letra que ela mesma escreveu em uma transparência e projetou na parede (!). Não é que eu consegui cantar e entender tudinho? Olhei pela janela para o céu que já estava ficando um azul clarinho. Eu era outra.

Quando desci os degraus palidíssimos, lá estava ela, como eu queria, minha Mami: de calça jeans surrada, camiseta cor de pêssego, descabelada com uma tiarinha prendendo a franja, alpargatas de corda. Sorria, sem batom. Oi, filha. Hello, eu nem te falei goodbye aquela hora, I am sorry. I love you.

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