Justificativa da ausência: Educação e Japan House

Processo seletivo para estágio, 4 horas diárias, de terça a domingo, em instituição cultural localizada na Av. Paulista. Sim, com certeza: assim consigo continuar a me entregar de corpo e alma para os meus estudos na Faculdade de Educação e ao mesmo tempo vivencio o que é trabalhar em um museu, tiro uma graninha e serei feliz.

Entrevista 1, passei. Entrevista 2, passei. Entrevista 3, passei. Eba. Tô dentro. Era para ser.

Dia 1: Beleza, uma tiazona no meio dos outros 10 estagiários de 20 anos. Mas tudo bem, tenho cabeça de jovem, sou flexível e eles são muito legais. Dia 2: Mariana, já que você possui experiência, temos uma proposta: você não quer ter um contrato diferente, trabalhar 8 horas por dia, porém ter os domingos e segundas-feiras livres? Dia 2 e meio: Sim! Dia 3, oito horas de trabalho depois: quero voltar a ser estagiária. Não pode. Já foi.

Durante 3 meses tive a oportunidade de trabalhar como orientadora na Japan House na exposição “Bambu: olhares de um Japão” e ao mesmo tempo ser estudante de pedagogia. Infelizmente, todo o meu tempo “livre” foi dedicado aos 87598452398 trabalhos e leituras da universidade, 2 manifestações, 1 bebedeira daora + 1 ressaca forte, 1 visita do meu irmão que mora no Chile, meia dúzia de aniversários. Fim. Sério, nenhum cineminha sequer (morri). E assim, o tempo ficou escasso: a ausência de novas palavras nesse blog não foi por falta de ter o que dizer. Muito pelo contrário, tanto o que dizer que não sobrou tempo para poder falar.

Agora acabou a exposição, já não sou mais orientadora e estou de férias da faculdade (freeeedooommm). Posso fazer uma mini retrospectiva e contar um pouco sobre essas experiências, ao invés de ficar me explicando.

Começarei pelos 12 livros inteiros que li, que alimentaram os meus pensamentos durante esse período (seguindo a lista que eu já havia começado de livros do ano, na seção do blog “literatura”):

Livro 6: O primeiro ano – Scott Turrow

Livro 7: O Manifesto do Partido Comunista – Karl Marx e Frederich Engels

Livro 8: Marx: Vida e Obra – Leandro Konder

Livro 9: A dançarina de Izu – Yasumari Kawabata

Livro 10: Histórias da outra margem – Nagai Kafu

Livro 11: Educação Funcional – Edouard Claparède

Livro 12: A construção social da subcidadania – Jessé de Souza

Livro 13: Kokoro – Natsume Soseki

Livro 14: Alunos Felizes – George Snyders

Livro 15: Espelhos – Eduardo Galeano

Livro 16: A Hora da Estrela – Clarice Lispector

Livro 17: Manual da Faxineira – Lucia Berlin

É muito doido, como essa quantidade de leitura em 3 meses (que eu acredito ser alta), porque além deles tem também todos os textos das aulas, muitas vezes de tamanho de livros, realmente faz a minha mente girar sem parar. Daí, quem sabe, meus sonhos loucos.

Mas mais do que isso, acho que essas duas vivências, Educação/Japão, puderam me proporcionar um grau maior de alteridade: tentar me colocar no lugar do outro, pensar um pouco diferente. Não sei se estou me tornando uma pessoa melhor, mas eu penso nisso.

Na Japan House, uma das coisas que mais me chamou a atenção era o valor dado para o fazer, ao invés de ter: algumas obras expostas mostravam que o que o artista fazia, a obra final, era efêmera, porque sem dó, ele ia lá e desmontava.

Por exemplo, os artesãos de bambu xintoístas que seguem o ritual dondoyaki: uma passagem de purificação em que todos os utensílios, amuletos, ornamentos, feitos de bambu, são jogados em uma fogueira, também de bambu, para que possam fazer os pedidos para o próximo ano, assim como espantar os maus espíritos. O carvão de bambu que sobra é muito fertilizante e, assim, usado como adubo nas plantações de bambu, para que possam crescer rapidamente, serem colhidos e, por fim, novos utensílios, amuletos e ornamentos são fabricados. Ou seja, mesmo que é algo que eles gostam muito, eles se desfazem do objeto e fazem novos, assim não esquecem da técnica, de como fazer.

Outro exemplo desse tipo de atitude pode ser notado na própria obra de arte mais divulgada pela mídia e consequentemente a mais fotografada pelos visitantes: um entrelace de 5 mil tiras de bambu que fizeram uma escultura. No último dia da exposição, o artista foi lá e a desmontou. Nada é permanente, tudo está em constante transformação.

Outro aspecto que também me fez pensar muito era o fato de haver uma biblioteca no local e, a maior parte das pessoas, ficavam indignadas que não podiam comprar os livros. Para os japoneses o senso de comunidade, de vários terem acesso a algo, ao invés de apenas um poder ter, é natural, para os visitantes da Japan House era um absurdo.

Os livros, sempre muito tristes. Mas o que mais me encantou foi um conto que li em um livro que não está listado (Contos da Palma da mão – Yasumari Kawabata) em que os moradores de uma vila tentam salvá-la dos espíritos do mal através da risada. Ha ha ha, eles faziam. De repente, todo mundo estava gargalhando. É triste e belo.

Já na faculdade de Educação, acho que uma das discussões que mais tocou meu coração foi ir afundo sobre educação igual para todos versus educação inclusiva: ver a necessidade de cada indivíduo para assim poder contribuir com a formação dele (a). Quando vimos dados da educação brasileira, da escola pública versus a escola particular é gritante o caos em que vivemos, a necessidade de que a educação seja levada à sério pelo nosso país. E aí, como a educação é tratada como “igual” para todos (por exemplo o método vestibular para entrar na USP), assim a desigualdade cresce a cada dia que passa, e mais e mais crianças e jovens ficam de fora, de tudo. Não dá para pensar que todos tem a mesma chance, que é só se esforçar. Não. Não é isso. A partir do momento em que a criança se forma dentro da barriga da mãe que não tem condições de ter uma vida digna, ela já está sendo deixada à margem da nossa sociedade. Indico a leitura do livro “A construção da subcidadania”, do Jessé de Souza para quem quiser pensar mais sobre isso.

A luta daqueles em que estão em classes sociais baixas, minorias étnicas, LGBTs, mulheres, deficientes, doentes, abandonados. Só me faz pensar como sou privilegiada (nascida em classe média, branca, bem nutrida, com família estável, saudável), e como eu preciso fazer algo. Ainda não tenho clareza do que é. Mas o que pessoas sofrem todos os dias não é humano. A vida tem que ser humana.

Essa bagagem só me faz agradecer por enxergar a vida de maneira diferente, de ver o que realmente importa. Penso e quero fazer a diferença. Acho que se todo mundo pensasse assim, tentando mudar a situação a partir do pequeno, do simples, de fazer, de compartilhar, de transformar, de aceitar, e não sempre jogando a responsabilidade para o outro, o mundo seria um lugar melhor para viver. Então, estou começando assim, tendo essa consciência, sabendo que eu posso contribuir para esse mundo, e à luta vou. Quem quiser, vamos juntos.

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