Merthiolate

“Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai, quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir”
Milton Nascimento

Merthiolate

Todas as manhãs a dúvida era a mesma: passar desodorante ou poupar a pele de veludo. Naquela terça-feira optou por sentir-se cheiroso e o roçar dos braços nas costelas intensificou a escamação na ferida que nunca curava; o resto do dia federia a Hipoglós. 7h28 da manhã e já havia corrido nove quilômetros, queria suar e eliminar o álcool das horas anteriores, e agora mais essa, enfrentaria o cheiro da pomada o dia todo, para aliviar a queimação na lesão aberta. Seria melhor ter encarado o cê-cê durante uma hora.

Aquela terça-feira já estava errada desde os primeiros minutos, o calor deu mais sede, a conta ficou alta, as cartas não cooperaram e perdeu no pôquer. Nunca conseguia entender se perdia porque bebia ou bebia porque perdia, era um ciclo sem fim, mas o garçom já sabia o resultado dessas jogatinas: quem sempre saía ganhando era ele mesmo, a única exigência do grupo eram copos sempre cheios.

Vestiu o capacete e foi para casa pedalando fortemente, encarando o dia abafado e cinza. Gostava de sentir a musculatura das coxas e das panturrilhas pulsando, o suor escorrendo nas costas, pertinho da orelha, na nuca e, no instante que sentia a camiseta grudar no peitoral bem torneado, conseguia relaxar. Num primeiro instante pensava no próprio corpo, visualizava uma fotografia de si, tranquilo, preto e branco, e, aos poucos, o que era estático começava a se movimentar, virando um filme; conseguia ser o ator e o espectador ao mesmo tempo. Se assistia, se excitava, via a si próprio se tocando, começando com um carinho intenso, se transformando em gestos violentos e certeiros. Bem perto de atingir o êxtase virtual, a luz se apagava e voltava a ver o pneu, o asfalto e as mãos firmes no guidão: estava pronto para pensar no boleto que esquecera em cima da mesa, na gaveta de verduras vazia, na prótese dentária dentro da caixinha de papelão para ser despachada para o motoboy.

Seu rosto refletia a luz vermelha do semáforo e, parado, aguardando uma mulher de mãos dadas com um garotinho de madeixas rebeldes atravessar na sua frente, um calor passou pelo estômago e pelas bochechas, sentia vergonha quando estava tendo pensamentos eróticos e outro ser humano chegava perto, tinha a sensação de que podia ser escutado. Tinha certeza que no futuro alguma tecnologia seria inventada para que isso acontecesse. Que o mundo acabe até lá.

Fixou os olhos brilhantes no sorvete de palito cor de uva que o menino segurava; uma mãe dar sorvete a essa hora para uma criança, absurdo. Como se a mulher possuísse o aparato de leitura de pensamentos, parou ao lado do ciclista e esbravejou:

– Tá olhando o quê? Saímos às 4 da manhã!

O semáforo ficou verde e ele queria era sair correndo, mas o menino deixou o sorvete cair inteirinho no chão e abriu o berreiro. A mulher, exausta, sentou no meio-fio e desmoronou, com as mãos segurando a cabeça. Josias olhou as lágrimas caindo no rosto do garotinho e sentiu uma pontada no estômago; impossível dar o fora.

Desceu da bicicleta, agachou na altura do menino, apoiando suas mãos delicadas nos ombrinhos dele, que o abraçou, soluçando. O choro era alto, tinha dor, pedia ajuda, o nariz escorria e sujava a camiseta daquele homenzão, que apertou-o mais perto de si, passando os dedos entre os cabelos rebeldes. Fique tranquilo, vai ficar tudo bem. O choro foi acalmando e o garoto começou a amolecer, apoiando a cabecinha perto da nuca suada.

Ele levantou o menino no colo e começou a andar lentamente, empurrando a bicicleta com o braço livre. A mulher olhava para os dois se distanciando e ficou ali sentada. Josias foi andando, sem olhar para trás, e, duas casas depois, apoiou a bicicleta na grade e entrou no bar da noite anterior, o garçom começava a colocar as cadeiras em cima das mesas.

– Dia, dotô! Ainda nem comecei a lavar o chão, esqueceu alguma coisa?

– Será que a gente pode tomar uma água?

– É pra já! Chora não, fio. Vai ficar tudo bem.

Josias sentou o garoto em uma cadeira e tirou a mochilinha das costas.

– Qual o seu nome, pequeno?

O garoto ficou mudo, olhando para a garrafa de plástico que o garçom colocou em cima da mesa. Josias abriu a garrafa, serviu os dois copos. A água respingou na mesa e o menino molhou os dedos, fazendo movimentos circulares.

– O que aconteceu, mestre? Precisa de ajuda?

– Tá tudo bem, o sorvete caiu e a mãe dele estava muito cansada. Mas vai ficar tudo bem.

– Não é minha mãe.

Josias saltou da cadeira e correu para fora do bar. Olhou para o semáforo. A mulher não estava mais lá.

– Grande, olha ele pra mim. Já volto!

O garçom deu um sorrisinho para o menino, não sabia que encrenca era aquela, mas já sabia que coisa boa não era, nunca tinha visto o fortão com uma criança.

Josias correu até o local, a rua vazia, ninguém para perguntar. Ficou olhando o sorvete roxo derretido, estatelado na ciclovia vermelha. Nenhum carro, nenhuma bicicleta. Ficou ali tentando avistar a mulher, mas nada. Voltou para o bar e encontrou o garçom segurando um copo alto com um canudinho preto espetado. Boteco bom, tem todo tipo de drinque.

– Sabe, barriga vazia não ajuda. Fiz um Toddy pra ele. Pão na chapa?

– Por favor. E café. Forte.

O garoto se ajoelhou na cadeira para chupar o canudo. Uma pessoazinha que nem alcança o copo, como poderiam largar? Não devem ter largado. Logo ela volta; ninguém seria capaz disso.

Josias soube que pessoas são capazes de qualquer coisa quando tinha por volta de doze anos de idade. Ainda levava o nome de Josiane e foi ajudar um amiguinho (que ela achava meio besta), mais velho que ela e que estava de recuperação; em artes. Depois de horas concentrados na mesa da cozinha, revistas picotadas, tesoura, cola, tintas abertas, tampas espalhadas em cima de um jornal, o amigo começou a provocar, pincelando o braço de Josiane com tinta azul. Na hora, Josiane revidou, metendo o dedo na tinta vermelha e passando na bochecha dele. Começaram a se pegar, um tentando deixar o outro mais colorido: dedos se entrelaçavam, pincel na testa de um, mão fazendo cócegas na barriga da outra, caíram no chão, e o amigo, com espasmos de tanta excitação, chutou a mesa deixando o pote de tinta amarela cair inteirinho na cabeça de Josiane. Riram muito, limparam a bagunça e, satisfeitos, sozinhos naquela casa, resolveram tomar banho, juntos.

Deitada no chão azul escuro do box, barriga para cima, a água caindo do chuveiro, afogando sua cara, e aquele menino, em cima dela, se movimentando, e, de repente, entrou nela. E ficou assim, saindo e entrando e saindo e entrando e saindo e entrando. Deveria ser normal, antes de ele começar a fazer isso ela queria ficar tão perto dele. Por que agora queria morrer? Ela estava errada, tinha que ficar quieta e aguentar. Até que ele parou e soltou todo o peso do corpo em cima dela.

Ela estava rígida e seus músculos foram dominados por ardência geral, como se tivessem passado Merthiolate (aquele que precisava assoprar, de tanto que ardia o machucado). Empurrou o menino, se libertando, levantou, e sem se secar colocou o vestido de bolinhas azuis marcado pela tinta amarela, calçou as sandálias e saiu correndo da casa. Correu, correu, correu, agora suava e suas pernas começaram a amolecer. Conseguiu chegar na Praça Cornélia e sentou em um banco protegido pela sombra de uma árvore cheia de primaveras vermelhas. Não chorou; queria berrar, voltar lá e bater nele, socar a cara dele. Ficou sentada no cimento duro por horas, planejando o que poderia fazer. Não chegou à conclusão alguma.

Voltou para casa e os dias foram passando lentamente, mas aquele episódio abriu uma ferida e sempre que algum garoto chegava perto queria fugir, sentia nojo. Começou a pensar que queria o outro lado; ser igual ao menino da tinta, meter fundo e forte, ser centrada em si. Não queria se abrir, queria ter aquele instrumento; queria ser ele. Plena e decidida, falou para a única pessoa para quem achava que podia falar qualquer coisa:

– Pai, quero ter um pinto.

O pai arregalou os olhos, levantou da poltrona, caminhou até a porta do quarto e pegou a cinta que ficava pendurada na maçaneta. Josiane não conseguiu ir para a escola durante uma semana.

– Olha o pãozinho quentinho! Esse vai ser um dia bom!

– Obrigado, Grande.

Josias olhava para o menino, a boca toda suja de leite com chocolate, fazendo bolhas com o canudo, e ria. Fechava os olhinhos bem apertados, os cílios eram longos e as bochechas formavam covinhas. Dava vontade de apertar, colocar num potinho e levar para casa.

– Meu nome é Jô, qual o seu nome?

– Luca. É Luca, não Lucas, tá?

– Quem era aquela moça?

– …

– Posso olhar sua mochila?

O garoto não se mexeu, Josias começou a buscar alguma pista, teria um documento, telefone? Tirou duas camisetinhas amarrotadas, um casaquinho de moletom cinza com capuz, uma calça jeans puída, remendada com joelheiras de couro marrom escuro, e um cachorrinho de pelúcia sem um olho. Mais nada.

O garçom observava por trás do balcão. Já sabia que era golpe. A mulher voltaria depois e abriria um escândalo falando que o Dotô tinha roubado a criança dela. Aí iria ameaçar e levar uma boa grana. Só podia ser. Ou ela era louca mesmo. Abandonou porque queria viver a vida. Lá na comunidade tinha muito disso, mas aí as vizinhas ou a parentada cuidavam da criançada. Quer dizer, cuidavam mais ou menos, davam arroz com farinha e teto, mas botavam pra fazer alguma coisa útil.

Quando Luca viu o cachorrinho em cima da mesa, o agarrou, apertava as mãozinhas na pelúcia com toda força, abraçava-o e dava beijos.

– Luca, quem era aquela moça?

O garoto ficou encarando o cachorrinho de pelúcia e, agora, com coragem, conseguiu responder:

– A Lúcia, ela é minha irmã.

– Entendi… E sua mãe e seu pai?

– Não sei.

– Você mora com ela?

– Hãhã. Só eu e ela. Mas hoje a gente veio de ônibus. Eu sentei na janela, eu fiquei com vontade de fazer xixi, a gente demorou muito.

– Você sabe onde é a sua casa?

– A Lu me falou que ia viajar, ela falou que ia encontrar o papai do céu e que a gente ia se ver daqui um tempão. Ela disse que tinha um monte de bicho no corpo, aí ela falou que ia encontrar o papai do céu. Entendeu?

Josias encarou a imagem da Santa presa na parede de azulejos azuis. Era obra dela, só podia. Quando deixou de ser Josiane, começou a vingança da tinta amarela impregnada nos seus poros; não tinha como contar com quantas mulheres tinha transado, foram muitas, não sabia. A tinta saiu do corpo, mas o Merthiolate não, aquela ardência ainda doía. Algo lhe dizia, talvez a Santa, que essa dor só passaria se parasse com o impulso de dia sim, e outro também, ter uma mulher diferente para usar seu “instrumento sexual”. Mas se sentia tão sozinho.

O garçom chegou perto da mesa com um paninho verde água, para limpar as migalhas e recolher os guardanapos amassados. Reparou que o menino tinha um barbante preso no pescoço.

– Fio, deixa ver o que tem aqui? – E meteu a mão dentro da camiseta do garoto.

Era um brinde que a Skol deu no carnaval, um plástico com um zíper para os foliões não perderem pertences importantes.

– Olha aí Dotô, tem uns papéis nessa coisa!

Josias tirou o porta-treco do pescoço de Luca, abriu o zíper, e dentro tinha um documento todo dobrado. Quando abriu o documento caiu um pedaço de papel rasgado.

Olhou primeiro o papel oficial, certidão de nascimento. Luca Araújo, só. Nasceu dia 13 de março de 2012, 5 anos, peixes. Pegou o papel caído, que estava escrito: “Cuida dele, por favor. Ele é bonzinho. Fique com Deus, vai ficar tudo bem.”

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