A bola

Passou as unhas pintadas de vermelho no veludo esverdeado do sofá, para baixo, as tramas do tecido ficavam desalinhadas, o verde ficava opaco, quando acariciava-as para cima, ficavam retas e reluziam. Fazia o movimento meditando, sobe, tudo certo, desce, bagunça. Sobe, brilho, desce, sem graça. Mas não podia, tinha que se concentrar. Pensar nisso faria a bola que tinha dentro de si, se agitar. Mais.

Invejava aquelas pessoas que, quando tinham um abalo interno, ficavam estáticas. Queria ser assim; não reagir. Pra nada. Bastava acordar com o nariz entupido, aparecer uma mensagem “de Marcelo” no celular, tocar alguma música que sabia de cor e a sua bola de pingue-pongue vinha pulando. Quando o gatilho era algo estrondoso, a bola se transformava em uma de vôlei, pronta para sair pela boca.

Atentou ao local que estava, para se acalmar; parecia que estava em uma sala de museu e não em uma sala de espera: o tapete persa cobria todo o assoalho, as três janelas compridas eram envoltas por robustas cortinas cor de salmão com detalhes em ouro, na mesa de centro, figos secos, tâmaras, uma jarra de prata suada pela água fresca, taças de vidro cor de vinho. Nas paredes, adornos otomanos coloridos cresciam em direção ao lustre de cristal, que dava à sala um tom quente e claro. O silêncio era cortado por uma música instrumental árabe de fundo. Agradecia ao ar condicionado potente, que mantinha o ambiente pesado fresco e, mesmo usando o paletó bege com ombreiras e o chapéu vermelho com véu branco, o traço do delineador continuava intacto.

Sorte era ser obrigatório estar com o uniforme da companhia aérea para a etapa final da vaga de emprego, nunca saberia o que vestir em um ambiente desses. Descruzou as pernas, trocando-as de lado, cruzando novamente e começou a balançar o pé. Tinha conseguido passar por todas as etapas anteriores, faltava a última. Merecia o cargo seguinte, estava pronta.

“Madam Campôs” escutou a enfadada secretária, que usava exatamente o mesmo uniforme, falar.

Levantou os olhos e viu, ao fundo da sala, atrás das grandes portas de madeira abertas, “o” homem. A bola que sentiu não foi nem de pingue-pongue, nem de vôlei, mas de futebol americano; sentia que estava saindo literalmente pela boca. Segurou a vontade de arrotar, espremendo os lábios e manchando parte do seu buço, sentiu o cremoso do batom, e logo passou os dedos no rosto, para tentar desfazer o estrago, inutilmente.

Tentava domar a bola há mais de trinta anos, desde o dia em que percebeu sua existência, por volta dos cinco anos de idade: era aniversário do seu avô e insistiu para sua mãe que queria entregar o presente, queria carregá-lo desde o momento de sair do carro até chegar nas mãos dele. A mãe batalhou para comprar aquele whisky 18 anos, ansiosa por ver o sorriso do pai, não gostou da ideia, sabia da falta de jeito da filha. Foi uma briga, mas acabou cedendo porque teria que carregar o filho menor no colo, precisava de ajuda. Chegaram no elevador, com muita excitação e a menininha, animada, abriu a porta com a mesma mão que segurava a garrafa, deixando-a escorregar e se espatifar em mil pedacinhos. Desde então, sabia que os estragos podiam ser irrecuperáveis, e, quando sentia a bola, ficava mais cautelosa, sabia que durante aquele dia perderia a noção de espaço, de tempo e coisas cairiam de suas mãos, tropeçaria em degraus não existentes, falaria achando que estava quieta.

O homem estava em pé, aguardando-a de longe. Ela fez força para poder levantar e se equilibrar em cima dos saltos, virou de lado e abaixou para pegar a bolsa apoiada no sofá, quando se esticou, bateu a panturrilha na mesa de centro, balançou a jarra e derrubou a taça de vidro, esparramando o líquido no tapete.

Olhou para o estrago e os batimentos do seu coração ficaram rápidos e fortes, até o homem deveria estar escutando o tum-tum-tum. Vagarosamente levantou a taça.

– Me desculpe! – falou em português.

A secretária deu um sorrisinho, o homem balançava a cabeça. Caminhou com passos frouxos, passou pelas portas de madeira, que se fecharam.

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