“Homens Imprudentemente Poéticos” – Valter Hugo Mãe

Continuando as publicações dos trechos de livros lidos no ano, a fim de gerar inspirações, reflexões e até discussões, o livro “Homens Imprudentemente Poéticos”de Valter Hugo Mãe foi o terceiro livro do ano. Será o último post desse tipo hoje, porque ainda não terminei de ler o quarto livro (será em breve).

Hoje, Valter Hugo Mãe é o meu autor favorito, na verdade, admiro-o não somente pelos seus textos de ficção, mas também pelo seu posicionamento como pessoa, suas opiniões à respeito dos acontecimentos do mundo e sua notável admiração e carinho pelo Brasil (ele é português). Seus textos são prosas poéticas, romances escritos de forma genial, em que as palavras dançam na cabeça do leitor: o estilo chama tanta atenção, mas muitas vezes, para mim, o enredo é o de menos. Leio e releio frases, parece que meu cérebro está sendo acariciado. Não são livros fáceis de ler, pelo contrário, devem ser apreciados, como um bom vinho, com muita calma; sei que cada palavrinha foi escolhida à dedo.

Neste livro, Valter Hugo Mãe criou a história de uma família japonesa que vive à encosta de um morro que suicidas vão para terminar com suas vidas. Muitas vezes voltam, outras não. O protagonista Itaro é um artesão, cria leques, sua irmã Matsu é cega. A trama acontece em torno da miséria destas pessoas, seus sentimentos e atitudes. Um livro para degustar palavras e poesia, pensar na vida, no amor e nos pequenos detalhes.

Este livro ganha 5 estrelas do meu ranking de 5 estrelas. Não foi possível escolher apenas um trecho, então aqui vão os que eu mais gostei.

“Homens Imprudentemente Poéticos” – Biblioteca Azul

Página 39:

“A felicidade podia acontecer num ínfimo instante, ainda que a fome se mantivesse, até a sentença para sofrer. O sofrimento nunca impedira alguém de ser feliz.”

Página 56:

“A felicidade está na atenção de um detalhe. Como se o resto se ausentasse para admitir a força de um instante perfeito.”

Página 140:

“Num abraço, pensava, as pessoas deixavam de se poder ver. Como se, num abraço, fosse indiferente quem estava, mas importasse apenas a convicção com que era dado.”

Página 145:

“Talvez ainda irrompesse do silêncio e a resgatasse para um regresso absoluto à mesma querida miséria de sempre.”

Página 149:

O autor define a palavra lago como “mar prisioneiro do Japão”

Página 151:

“Quando se fez a cerimónia de casamento, por estarem juntos às águas, escutavam as pessoas vozes rasteiras que se alegravam. A lenda ficava contando que no casamento da cega os peixes celebravam incansáveis. Outras pessoas afirmavam que, por ser a menina cuidadora de palavras, o próprio mundo lhe falava para lhe traduzir a beleza de cada instante. Como se apequenasse o escuro. Diziam assim, que no dia do seu casamento junto ao lago Biwa a cega apequenara o escuro. O sol estava fresco mas intenso. Nem as sombras se faziam. Os lados todos de todas as coisas eram emanações da claridade.”

Página 179:

“Sabia que os mendigos eram teatrais. Estavam longe de mentir. Apenas ilustravam o desespero com talento.”

Página 179:

“Falaria de amor. Diria: o que se opõe ao amor se afeiçoa à morte. O artesão haveria de mendigar por obrigação de alegria.”

 

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