Intemperismo

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Esse ano li uma frase de Guimarães Rosa que mexeu comigo: “Infelicidade é uma questão de prefixo.”. Essa frase explodiu na minha timeline do Facebook e dentro do meu peito, li, senti uma pontada no estômago, que se espalhou como um formigamento e subiu até a altura do meu coração, fez ele bater mais rápido e mais forte; parecia que eu tinha visto o ser amado.

Acho que eu vi mesmo, mas apesar de eu ter uma paixão recém-descoberta pelo Guimarães, não era por ele, mas pela percepção vibrante de que a junção de vogais e consoantes se transformam em palavras, embutidas de significantes e significados poderosos.

Eu já tinha estudado isso na faculdade de comunicação, em cursos corporativos de liderança, em técnicas de negociação e até vivido situações que eu sabia que minhas palavras tiveram a capacidade de gerar conforto, desconforto, raiva, amor, esperança, riso. Mas foi somente nesse momento que senti nitidamente esse poder.

As palavras são reflexo do momento, de tudo o que está acontecendo e de quem está nele, mas que estão em constante transformação. Quando será que a palavra “gratidão” foi tão utilizada? Pode me odiar, mas eu não gosto dessa palavra. Creio que ela vem carregada do mundo consumista que vivemos, ela vem com culpa (in)consciente embutida, é uma palavra negativa. Por que? Porque é acompanhada de fotos em praias paradisíacas, de drinks, de momentos felizes, de sorrisos. Gratidão não é isso, pode olhar no dicionário. Mas é assim, a palavra muda e agora “gratidão” é isso: estar num momento digno de foto de redes sociais.

Parei para pensar em algumas outras palavras e expressões que vieram à tona, ou foram criadas, nesses últimos tempos, no dia a dia ou na internet:

– Incrível (nada é tão bom quanto algo incrível)

– Oi tudo bem? (usado para puxar assunto via whatsapp/facebook messenger/tinder/happn)

– Bafo (um acontecimento escandaloso)

– Sofrência (um sofrimento mais superficial, pode ser uma ressaca, ou um dia que não se está a fim das obrigações diárias)

– Fora (Fora Temer!)

– Amor (seguido de corações, nunca foi tão usado para tudo e para todos)

– Blasé (acho que porque tem muita gente assim)

– Empoderamento (precisa explicar?)

– Destruidor (usado no bom sentido, algo extraordinário)

– Boy magya (o ser amado/apaixonado/que a pessoa tem tesão)

– Crush (aquele com quem se tem um caso, ou se quer ter)

– Miga(o) (contração de amiga(o), usado no lugar do nome da pessoa)

– Isso é massa! (usado para expressar algo legal – era usado no RJ agora já está perambulando por SP)

– Crise (o país, as pessoas, os sentimentos, todo mundo no fundo do poço)

– Top (é o topo? mesmo?)

– Alá (diminutivo para olha lá – constatação de uma situação)

– Eita (quando não sabe o que dizer, uma interjeição)

– Aff (interjeição reduzida de Ave Maria, para ser o novo “nossa!”)

– Manda nude (madar a foto de um nu seu)

– Falsiane (quando alguém é falso, não merece confiança)

– Lacrar (é sinônimo de arrasar)

– Tô morta(o) (quando alguém está perplexo)

Essas que vieram na minha cabeça rapidamente, mas sei que há muitas outras que merecem atenção para reflexão. O que isso tudo quer dizer? Palavras curtas, de rápida digitação, sem seguir as regras de ortografia e gramática. Palavras que remetem à intensidade e palavras com sonoridade.

Pensa bem em “crush”: não dá a sensação de quando a Mônica, da Turma da Mônica ficava com os olhos vidrados de paixão por alguém até que eles trincavam? Boy Magya, já vem seguido de mágica, de estrelinhas. Bafo, só de escutar essa palavra parece que já recebi um sussurro na cara, que me deixa perplexa. Crise, jeito mais fácil de se esquivar, de qualquer coisa e o “i” é tão agudo que dá repulsa, então o interlocutor entende a crise. Tô morta, quer algo mais intenso que isso?

Para mim, a busca foi sempre de palavras que dançam. Presto muita atenção quando as pessoas falam, ou quando leio algo, para ver se tem coisa boa. E difícil, porque por aí tem muito migo, incrível, amor e aff. Mas tem gente que me ajuda e nem sabe. Algumas que gosto (desse jeito, sem alterar o tempo verbal, ou adjetivar, ou substantivar):

Vertiginosas, urdidura, sucumbi, onírica, vaporosa, talismânico, agônico, tempestuoso, epifania, irreparável, medusante, chulo, opacidade, totalizante, japonismo, enigmático, escancarada, vampira, borrão, voluptuosidade, predicado, promenade, ouriço, metamorfoseou, amargura, tripartida, retratista, pluralidade, suprassensível, teleológico.

Acredite: essas palavras foram usadas por pessoas em 2016.

Uma outra palavra que relembrei esse ano foi “intemperismo”. Aquele tipo de palavra que foge da mente, já que não sou geóloga nem estudante de geografia. Não teve muita graça porque foi durante uma aula, mas, mesmo assim intemperismo bailou nos meus ouvidos e na minha pele: significa o conjunto de processos mecânicos condicionados pela ação de agentes atmosféricos e biológicos que ocasionam a destruição física e a decomposição química de minerais e rochas. É a quebra da rocha.

Essa é a minha palavra desse ano, pelo que senti e vi. Eu sofri intemperismo. Eu sou uma pedra, nada nem ninguém pode me abalar, mas eu quebrei; sofri erosão, decomposição, eu sedimentei, por eventos que aconteceram dentro e fora de mim. Tudo isso foi “incrível”: foi sonoro, foi intenso. Eu mudei de vida, eu me assumi como a pessoa que sou, eu larguei tudo e tudo está tão encaixado, a vista aqui de cima, da minha rocha, é tão nítida.

Não foi fichinha, teve a morte do David Bowie logo no começo. Eu chorei, eu senti, percebi como eu sou fã. Teve dias de pronto-socorro, de ressaca, de coração partido, de agonia, de angústia, de medo, de demissão, de atingimento de metas. Teve novos amigos, teve fortalecimentos dos já amigos, teve show do Rolling Stones, teve cerveja, teve trilha com as frenéticas da trilha, teve pizza de abobrinha, teve champanhe, teve vinho, teve muito vinho, teve filhinhas de amigos nascendo, teve a notícia de 2 bebês vindo na família e mais um da família adotada, teve aula de história da arte, teve cerveja, teve aula de cinema, teve muito cinema, teve Aquarius, teve séries ruins, teve a leitura de 20 livros, teve muito vinho, teve a criação de um blog, teve aula de escrita, teve dois contos escritos e publicados para todo mundo ler, teve muita observação, teve muita foto, teve epifania, teve irmãos vindo de fora, teve reencontros, teve muito vinho, teve 733 quilômetros rodados de bicicleta, teve cerveja, teve natação, teve sol, teve banho de chuva, teve virada cultural, teve carne de panela da vovó, teve cerveja, teve até cachoeira no meio da cidade, teve vestibular, teve matrícula, teve cerveja, teve pizza de mozzarela de búfala e manjericão, teve aspargos, teve pistache, teve chocolate 85% cacau, teve laranja com chocolate direto de Lille, teve Caetano Veloso, teve Chico Buarque, teve Maria Bethânia. Teve saúde. Teve família. Teve apoio. Teve amor, esse tão falado.

O que posso dizer do meu intemperismo? Só veio para me metamorfosear, virei outra pessoa. Eu acho que uma pessoa muito melhor. O prefixo de infelicidade, não está fazendo parte do meu dia-a-dia.

Agradeço a todas as pessoas que fizeram parte desse meu ano. O intemperismo foi meu, mas não foi sozinha, numa ilha: foi com vocês.

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