Lado B, Lado A

“Mexe qualquer coisa dentro, doida
Já qualquer coisa, doida, dentro mexe”
Caetano Veloso

Lado B, Lado A

O garçom tinha feito suas preces, Nossa Senhora e Santa Clara colaboraram e o sábado amanheceu com o céu tão azul que chegava a emocionar. Ele olhava para cima, na calçada já lavada com água sanitária, fazia um movimento com os braços, imitando uma dança egípcia e sorria. Escutou com satisfação o freezer extra rangendo o motor: hoje vai dar bom, com certeza não vai faltar boca seca querendo cerveja gelada.

De tempos em tempos o bar se transformava em uma feira para vendedores de discos se reunirem, trazerem suas melhores relíquias e os colecionadores se juntavam, usando todas suas economias. As mesas quadradas limpas com dedicação se disfarçavam de mini-estandes, e em forma de U, se estendiam até a rua, uma festa com ar de nostalgia: as cadeiras ficavam empilhadas e o centro virava uma semi pista de dança para os menos tímidos, para crianças e para animados pela cachacinha; a cozinha só servia porções num saquinho branco ou num pratinho de papelão com o fundo prateado, nada de prato de verdade, palitos no lugar de garfos, tudo descartável para batata-frita, pipoca, amendoim e calabresa acebolada; nada de conta, pagamento antecipado e retirar os pedidos com ficha.

O estande “Bra” ficava cheio de amantes de rock nacional em busca de novidades antigas para suas coleções. Baeta passava os dedos pelos discos e estava um pouco incomodada, todos os expositores dispunham as bolachas de forma coerente, de frente, fácil de ver as capas, mas esse senhor tem que ser o diferentão e colocar de lado para eu ficar toda torta, sem contar esse outro cara mala, sem noção, que chato, fica encostando no meu braço.

O rapaz atento às capas, passando os discos na direção contrária, ficava mentalizando: tenho que achar o “Meninos da Rua Paulo”. Tinha dado o seu para um crush, pensando que sempre poderia escutá-lo, mesmo que fora da sua casa. Agora tudo tinha acabado sem brigas, num ato moderno de fim; ela sumiu sem deixar rastros, apenas parando de mandar e responder as mensagens pelo celular. Se arrependimento matasse, estaria mortinho da Silva, era impossível encontrar o disco que não fez sucesso, não vendeu e não existe mais.

A freguesia já estava se aglomerando e o garçom estava feliz, como gostava desses sábados especiais, a música que escolhia para colocar nos dias corriqueiros nunca era tão boa. Cantava acompanhando a caixa de som, encarnando Alípio Martins “piraaaanhaaaa é um peixe voraz, de São Francisco, não, perdão, Rio São Francisco, não, não, perdão, Amazonas, nosso grande rio, Amazonas, tuc tuc tuc tuc”. Finalizando seu show particular parou, pensando se hoje sairia do seu bar um novo par. Vou pedir um Roberto Carlos.

Baeta[1] começou a olhar as capas do lado esquerdo e ia derrubando os discos um por um, enfadada; não tinha certeza de como se comportar num ambiente desses, achava que sua roupa estava totalmente sem estilo, também que ideia de jerico, uma camiseta surrada de florzinhas não cabia num lugar tão alternativo. O cabelo castanho preso num coque baixo. Onde já se viu? Só na novela das seis. Que burra. Melhor ir embora. Se bem que se esse pessoal alternativo é tão mente aberta, deveriam entender o estilo dos sem-estilo. O problema é que uma pessoa sem estilo num ambiente só de estilosos chama atenção. Esse é o perigo.

Tinha começado aquelas buscas por discos antigos há pouco tempo, mas como uma tarefa, sua psicóloga não cansava de alertar que precisava ter interesses, ter um hobby. Ficar em casa, de preferência deitada, era seu interesse, ponto. Não, não era suficiente. Televisão, filmes? Não serve, só se for no cinema. Então o quê? E acabava a sessão. Em uma tarde, curtindo o interesse-que-não-vale-como-interesse, se viu olhando para a velha vitrola do seu avô, única parte da herança que sobrou e, pronto, resolvido. Vou reativar essa joça e escutar música em casa, deitada, um belo hobby.

Ao seu lado, o mocinho derrubava os discos para o lado contrário, da esquerda para a direita, em um movimento automático, apenas parando naqueles de capa vermelha. Nada, não ia mais encontrar aquele disco, há meses que ia em todas as feiras de LPs, em sebos, em lojas, talvez fosse um sinal de que não era mais para escutá-lo, ia relembrar o passado e era um disco ruim pra chuchu. Mas mesmo assim planejava colocar a vitrola para rodar, ficar bem confortável, de preferência de camiseta e meias, para não sentir os pés gelados, servir uma dose de whisky e sentir muito calor no peito, coisa que não sentia desde que as mensagens pararam de chegar.

“Ana, Ana, Ana

Oh oh oh, que saudade de você…”

Cantava o garçom atrás dele com uma bandeja cheia de latinhas vazias, soltando a voz, e fechando os olhos, imitando o cantor.

Baeta nem sabia por onde começar, mas a estratégia foi iniciar a sua coleção por bandas brasileiras, discos baratos. A psicolôca vive em outra dimensão, ela acha mesmo que existe grana disponível no mundo para ter um hobby. Puxou um disco de capa vermelha e preta do caixote e o ser humano que estava ao seu lado deu um grito e segurou o disco que estava em sua mão, puxando-o.

– DÁ ISSO AQUI! NÃO ACREDITO!!!

Em um milisegundo a apatia da moça se transformou em pura raiva; escutar aquele desconhecido berrando no seu ouvido fez uma tremedeira começar na sua unha encravada no dedão do pé, passar pelos joelhos que se dobraram por um centímetro, seguiu pelo seu ventre, um calor instantâneo arqueou-o para frente, se aproximou do seu rival, um impulso nasceu no final do seu estômago que finalmente subiu para os seus pulmões, deixou seu rosto vermelho, a ponto de explodir e berrou, desesperada, como se tivesse na descida mais rápida de uma montanha-russa:

– AAAAAAAA!!!

O garçom, acostumado com os sem-limites, com os cornos, com os portadores de más notícias, com os ultra-felizes, com jovens demais, com os velhos demais, sabia lidar com incontrolados. Mas poxa vida, era cedo ainda, o que será que esse daí aprontou?

O moço levou um susto, ficou sem respirar, mas o seu reflexo foi puxar o disco, o que desestabilizou a moça que também segurava aquele objeto com tanta força, acabou se desequilibrando e apoiando nele. A mão dele que estava livre passou pela cintura, segurando as costas dela, para que não caísse.

Ela sentiu o cheiro dele, de lança perfume. Ficou tonta. Esse cara é doido, que raiva, que vontade de ficar perto. Com certeza ele é tóxico. Esse cheiro, o que é isso, minha gente? Pensou no berro que tinha dado, foi tão intenso, com tanta força, e agora se sentia tão aliviada, tão mole. Ele a encarou tentado decifrar o que tinha acontecido. Não conseguiu, sentia o tecido macio da blusa dela e ficou ali, servindo de apoio. Estava gostoso.

– Ô gente, tá tudo bem por aqui? Eita, palmeirense, é você! Tudo nos conformes? Sabe como é né, preciso perguntar pra deixar todo mundo feliz.

Soltou com delicadeza a cintura da moça, olhou fundo nos olhos dela.

– Sim queridão, tudo certo. Estamos nos conhecendo. Já que você quer ajudar, tenho uma ficha aqui, pode trazer uma trincando e dois copos?

– Coisa boa! É pra já!

Baeta ficou paralisada, tentando se equilibrar enquanto o garçom sorridente falava. Aos poucos foi se recompondo externamente, mordendo os lábios, prendendo a franja rebelde atrás da orelha, essa franja, ideia imbecil. Por dentro uma confusão sem-fim, uma vontade de saber mais sobre o disco, sobre o moço e ao mesmo tempo uma repulsa, dois copos, onde já se viu, ele vai querer que eu beba com ele, esse bruto, arrancar da minha mão, assim sem mais nem menos. Estranho esse corte de cabelo, ele também tem franja, quer dizer ele tem mullets, por isso parece franja. E desatou a rir.

O rapaz ficou sem saber o que fazer, ficou vermelho, passou a mão pelos cabelos e ela riu mais ainda, já saíam lágrimas dos olhos, colocava a mão na barriga. A risada dela foi tão espontânea que ele começou a rir junto, muito, ela ria mais e ele mais, um ciclo interminável até que a cerveja chegou, interrompendo aquele momento.

O garçom sem jeito deu uma risadinha, o Robertão estava fazendo efeito mais rápido do que o esperado.

– Acho que eu te assustei. Me desculpa, estava procurando esse disco faz tempo e me empolguei. Está tudo bem? Segura aqui esses copos, deixa eu servir a gente, preciso me desculpar, sabe, eu amo essa banda. Você também? Pode ser com espuma? Não teve jeito, vai ter que ser à moda chope, sou péssimo em servir em copos de plástico, poxa, ele podia ter dado copos de vidro, venho aqui toda semana. Tá calor né? Vamos lá fora? Mas quem vai ficar com o disco? Nossa acho que estou te assustando, nossa, nossa. Desculpa.

Baeta ficou séria, jogou os ombros para trás e respondeu:

– Nada feito, o disco é meu, eu vi primeiro e também amo essa banda.

– Quê? Você tá falando sério?

– Tô. Aliás, por favor moço, você é quem está vendendo? Vou levar.

Sorriu, entregou de volta o copo cheio de espuma e tirou a carteira da bolsa.

Nossa, nossa, nossa. Que raiva. Duvido que ela conheça qualquer uma dessas músicas. Por que não pude ser calmo? Com certeza isso está acontecendo por eu não ter parado de falar.

Baeta não fazia a mínima ideia do motivo daquele disco ser tão importante, mas deveria ser muito bom para o moço desejar tanto, então decidiu que esse seria o primeiro da sua coleção, uma raridade, sabia que a banda era muito brega, mas conhecera na faculdade e gostou (um pouquinho): um paquera gravou um CD e mandou via correio com dois ingressos para o show – ela queria ir com sua irmã, mas a irmã negou, mandou que chamasse o admirador, porque era isso que ele esperava; depois de enrolar muito e quase ir sozinha para vender os ingressos na porta, ligou para ele e fez a pergunta, claro, te busco aí, e durante a música hit, perguntou se ela queria namorar com ele, breguice atrás de breguice, mas foi levando e ela até acabou decorando e gostando das letras, mas só daquele disco, ninguém precisava saber mais – depois que o namoro acabou, veio o mp3 e o CD ficou jogado no fundo de uma gaveta emperrada – agora a banda reaparece, sem mais nem menos, numa tarde vazia, igual ao dia que assinou a via do comprovante e o carteiro entregou o pacote; igual a letra da música hit; igual ao moço já querendo decidir que ela deve beber cerveja com ele e que ela deve ceder e dar o que ele quer na hora que ele bem entende, mas dessa vez tinha que ser diferente porque essa tarde nunca fora vazia, teve o prazer de pegar sua listinha de resoluções do ano e dar o check mais difícil; teve uma sensação de orgasmo e berro no meio do bar; crise de risada e até um pouquinho de xixi na calça: ela não tinha motivo para ceder, agora que tinha um hobby, que não só a tarde, mas a vida, estava ficando cheia, não seria um menino mimado, tatuado, de mullets, que iria estragar tudo.

O salão mudou de humor, pessoas muito sorridentes se aglomeravam nos estandes, a conversa rolava fácil, grandes nomes da cena musical eram falados entre cifras jogadas; faz por 20, oxi, cê tá de brincadeira, isso é ouro, meu caro. Mesmo sem se conhecer, os colecionadores se sintonizavam, estavam unidos, valorizavam algo que outros não percebiam como era único, cheio de histórias, de vida. E no meio daquele alvoroço, os dois desconhecidos que saíram de casa motivados a voltarem diferentes, aqueles que levavam o vazio dentro de si mesmos, querendo se reparar através de uma compra, se trombaram e conseguiram uma história para contar; o que não imaginavam era que também conseguiriam ganhar um inimigo: cada lado lutando pela conquista do disco ruim.

O cheiro de calabresa frita fez as bocas salivarem e o garçom, já sabendo que esse era o momento dos estômagos estarem roncando, muito esperto, passou com uma bandeja cheia do aperitivo com palitinhos de dente fincados na carne cor de brasa, para degustação. Era fácil ganhar o pessoal pela barriga.

O moço estava intacto, olhava para a mão da menina esticada com o cartão de crédito tinindo e virou o copo cheio de cerveja dentro da sua garganta, esperando que, sem sede, as ideias pudessem transcorrer livremente e seu problema ser solucionado.

– Só para avisar, sou o melhor amigo do dono dessa banca e pode ter certeza que ele não vai vender esse disco pra você. – blefou bonito.

– Privilégios em todos os lugares para vocês, não sei por que insisto em sair de casa.

De supetão, veio a vontade de ficar perto dela, essa bravinha, doida.

– Calma. Que tal a gente pagar meio a meio e chegarmos num acordo lá fora?

– Só se isso for uma aposta: quem tiver motivos fortes, ganha.

Apertaram as mãos suadas, ela estremeceu atrás da nuca, digitaram as senhas e caminharam para a calçada, com a cerveja, os copos e uma sacola verde limão com o prêmio do duelo. Instalados na calçada, brindaram e ficaram se olhando até que ele desabafou:

– Você dá presentes no natal? Eu dou, e dei o certo para a errada. Fui besta: se alguém gosta mesmo de um disco, dá para ver, é só reparar o modo que passa a mão sobre ele, como fala com ele. É uma pessoa lado B. Ela não era assim, mas eu estava desconcentrado.

Baeta apertava a sacola entre seus dedos, olhava para o rapaz e reparava como os olhos dele brilhavam enquanto falava sobre o tal disco. Estava se encantando com o jeito estranho que ele falava. Como ele é sensível e corno. Coitado. Ele não foi coitado na hora de agredir, tentando arrancar da minha mão. Mas ele cheira tão bem.

– E se uma pessoa for um lado A e quiser tentar o outro lado? – e deu um empurrãozinho no ombro dele.

A brisa da hora do almoço balançou os mullets do rapaz, ela deu uma risadinha, o garçom passou as costas da mão na testa e suspirou; casa cheia.

 

[1] Baeta é um algodão felpudo e era um dos tópicos tratados pela moça em suas sessões de análise, tinha certeza que a falta de vontade de sair de casa era culpa do seu nome: repetidamente lamentava que sua mãe resolvera chamá-la de algo convidativo para se deliciar no sofá com uma xícara de chocolate quente, por isso ela era aconchegada.

 

 

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