Golpe

“Nos dias de hoje é bom que se proteja

Ofereça a face pra quem quer que seja

Nos dias de hoje esteja tranquilo

Haja o que houver pense nos seus filhos”

Ivan Lins

Golpe

– Uma porção de fritas, uma coca e uma dose de Boazinha.

O relógio marcava 10:36h, o garçom lavava o chão encardido, se preparando para o dia pesado que viria, bufou e, irritado, levantou os olhos para o freguês pronto para dispensá-lo, afinal, faça-me o favor ainda não estamos nem no meio da manhã e um pinguço vem me incomodar, sem ao menos falar “por favor”. Onde esse país vai parar?

Se encararam e a imagem o pegou de supetão: o coroa que fez o pedido já estava apoiado no balcão e trazia olhos inchados e vermelhos, trajando um conjunto de terno e gravata. Quando tirou o paletó e o ajustou nas costas da cadeira, as iniciais se revelavam no canto da camisa: “J.O.T.M”. Em sua companhia, uma senhora de hábito escuro e crucifixo na mão.

Aí tem encrenca, melhor atender esses aí.

– A Coca é zero? Gelo e limão? Fritas simples ou com cheddar?

José Otávio, aguardando a dose, ficou pensativo, olhando para o balde que emanava cheiro de água sanitária. Este cheiro o levou para o fim do recreio, na época do Colégio das Irmãs, quando era Zé e não Doutor.

Suado, fedido, se refrescava na pia, jogando água no rosto, fazendo uma molhaceira no chão. O papel fino, cor de rosa, com cheiro de jornal era usado para enxugar, mas só se despedaçava. Abaixava para secar o azulejo (caso contrário o bedel o castigaria, dando alguma tarefa justamente na hora do tão esperado recreio) e o perfume do piso limpo penetrava suas narinas com a notícia de voltar para a sala de aula.

Mais de trinta anos depois, este cheiro não mudou e continua trazendo aflição. Queria voltar para aquela escola, para a quadra de cimento queimado com o gol improvisado, para a hora do lanche com suco de caju aguado e bolo de coco no papel alumínio. Riso fácil, sempre metido em confusão, no seu bolso sempre um peão, figurinhas da seleção, um clipes, e meia dúzia de moedas para poder jogar e sempre ganhar.

Do outro lado, o garçom refletia: já fui cúmplice de boas notícias, outras devastadoras, já celebrei aniversários de nascimento, de casamento, de parceria, já vi corações serem partidos, outros serem juntados, gente rica sendo mesquinha, gente pobre esbanjando, sorrisos tortos, gargalhadas. Como a vida é dura: todo mundo sofre de alguma coisa, mesmo que de alegria. Pena que não tem mais ninguém aqui para apostar comigo a situação desses aí.

– Dotô, com cheddar?

José Otávio gostaria de não ter que pensar. Tinha vontade de explodir, berrar: não importa! Queria uma fritura para poder voltar aos dias sem contar calorias e uma cachaça para esquecer o que havia acabado de descobrir.

– Simples. E a dose é dupla, com chorinho.

– E pra Irmã, a Coca é zero?

O garçom ficou aguardando a resposta, mas ela estava muda, em choque.

– Vou trazer normal. Acho que a senhora tá em ótima forma.

Neste momento José Otávio levantou os braços e gritou:

– De que adianta?!! Essa daí é feita de aparências. Se você soubesse do que eu sei, iria concordar comigo que ela não presta. Depois de tudo, uma descoberta dessas! Traz pra essa coitada uma dose daquela Cândida. Não faço ideia de como ela pode… Isso é uma sujeirada tão grande que nem tomando um litro de desinfetante ela não vai conseguir se limpar.

Silêncio. O garçom arregalou os olhos, abaixou lentamente para pegar a garrafa de cachaça e encheu dois copos americanos; um para ele e outro para o freguês descontrolado.

A mãe observava o filho indiferente. Aquele homem já fora um bebezinho feio, um ratinho, todos julgavam que ele não sobreviveria. Ela sim, acreditava que esse ser minúsculo sentia como era desejado e sabia que ela não poderia perdê-lo, jamais. Durante sua juventude sem juízo, propositalmente havia descartado seu primeiro filho, não nascido, impedindo que ele viesse ao mundo. Tudo mudou, e chegou a hora: queria carregar um barrigão e desfilar enlaçada no pescoço do homem certo, com aliança no dedo esquerdo.

O garçom se aproximou trazendo uma lata de coca normal, quando colocou em cima da mesa, encostou nas mãos cruzadas da freira, que acariciava o dedo anelar esquerdo e não parava de encarar seu filho. Bonito! Aquela camisa bem cortada, os cabelos grisalhos caindo na testa. Como podia, mesmo chorando e tomando uma cachaça barata, o ar superior não sair dele?

Mas esse homenzão já fora Zezinho, o seu ratinho, com vontade própria antes mesmo que a barriga virasse um barrigão. Foi herói desde o primeiro dia: apressou-se para vir ao mundo. Inesperadamente superou a falta de leite, a infecção no intestino, o enfisema pulmonar. Tudo foi providenciado, ela não podia perder mais esse, e seu bebezinho encarou todas as medidas sofridas para crescer saudável: inalador, antibiótico, fisioterapeuta, terapeuta, vitamina, leite especial. Ele não desistiu e foi independente durante os longos meses dentro da incubadora, encarando os aparelhos para respirar, para sugar, o cirurgião, as enfermeiras, o padre. Foi dando certo, Zezinho surpreendeu, tomou forma, passou de rato para bebê, de bebê para menino: um príncipe! Nada faltaria para ele, nunca.

José Otávio pediu para o garçom um maço de Marlboro light. Que logo deslizou pelo balcão. Do que adiantava ter parado de fumar? Tô nem aí. Levantou-se e andou até a calçada, ficou ali parado. Minuciosamente puxou o lacre que abria o invólucro transparente, amassou e o meteu no bolso. Colocou o cigarro na boca e olhou para cima; entre os prédios ao seu redor e as nuvens que encobriam o sol, conseguiu avistar uma nesga de céu azul. Que raiva, que vontade de subir e ficar olhando tudo lá de cima, ao lado daquele Deus tanto falado. Onde você está?

A Irmã enfiou um canudo fino e cor-de-rosa na lata e sugou a coca-cola que desceu gelada. Que alívio, parecia que entrava dentro do peito, dando forças para ela lembrar de tudo o que sempre quis esquecer. O marido fugiu, nunca mais souberam dele. Mas não importava, agora era mãe. Todo tempo naquele hospital frio, acompanhando seu filhinho apenas serviam para pensar nas contas que tinha que acertar com os médicos e com a sua consciência: sabia que o que estava acontecendo era o Todo Poderoso cobrando o aborto que fizera.

Naqueles dias, quando apenas conseguia pensar nessas dívidas, ela não tinha fome e quando terminava a hora da visita e saía do hospital, caminhava; afinal, de corpo, já estava recuperada, nem parecia que tinha parido. Seu rosto revelava sofrimento e preocupação, rugas novas e cabelos brancos que apareceram de repente.

O garçom foi até José Otávio e lhe ofereceu o isqueiro. Ficou ali aguardando o homem tragar aquele cigarro com tanta força que achou que iria explodir. Puxa vida, o Doutor tava precisado de um fumacê. Voltou para dentro e perguntou para a freira:

– Posso servir a porção de fritas, ou a senhora quer esperar ele voltar?

Ela olhou para ele e não respondeu, não conseguia, a única imagem que vinha em sua mente era aquela avenida, as luzes dos carros vindo atrás, aquele barulho; naquela noite quente depois de andar, pensar, andar, pensar, andar, andar… Cansou. O cabelo já estava preso num rabo de cavalo e o vestido estava todo transparente, molhado de suor. Sentou na sarjeta e só pensava em como faria para pagar a dívida médica, já estava impagável. Sem marido, sem poder trabalhar para cuidar do pequenininho, e aquele golpe acontecendo.[1]

– Senhora, acho que eu vou trazer é a batata frita e outra coca, que essa daí já tá seca.

-Tudo bem.

O filho entrou com uma feição mais amena e esbarrou o sapato preto brilhante no balde, derrubando o rodo encostado na parede. A Irmã levantou-se da cadeira e abaixou para erguê-lo.

Se seu filho soubesse que o que ela queria mesmo era ser faxineira no hospital que ele estava internado quando era bebezinho. Pensava que, como era uma instituição tão grande, deveria ter trabalho para ela ao mesmo tempo que poderia ficar perto dele. Além dessa ideia, naquela época não conseguia pensar em mais nada. E naquela noite de andança, quando estava sentada na sarjeta, de repente sentiu um supetão no ombro. Era um militar que a abordou perguntando quanto era. Ela não entendeu, quanto era o quê?

O soldado com o casaco jogado no ombro continuava encarando-a, olhando fixamente para o seu decote. Entendeu. Era isso. Até que ele não era feio e era forte. Sua solução! Calculou a soma de dois aluguéis. OK, disse para ele. Entraram num prédio sujo com letreiro brilhante, não dava para saber se a primeira letra da palavra “Hotel” era H ou M.

Foi assim, sem mais nem menos que, no lugar de conseguir um emprego na limpeza, começou a se sujar. Durante o tratamento do bebê, até perdeu a conta, mas deve ter atendido um pelotão. Pagou tudo, dívida financeira não tinha e a poupança estava recheada.

O garçom trouxe a batata numa travessa de inox, uns saquinhos de catchup, mais uma coca-cola e um porta guardanapo cheio de guardanapos tão finos que poderiam enrolar cigarros com eles, pensou o Doutor.

Mãe e filho estavam sentados um ao lado do outro, sem se encarar e sem se encostar.

A mãe pensava que nunca ninguém soube e nem nunca saberia do seu segredo, só seu. Se martirizava e condenava o tempo todo, a consciência lembrava-a todo o instante daquele quarto: a cama rangendo, o lençol ranhento, o ventilador rodando vagarosamente, o relógio ticando. Não pensava nos militares, nem nas ameaças e brutalidades. Os móveis é que vinham como flashes, toda hora. Para tentar se tranquilizar, só podia rezar.

Não se acostumava. Pensava que poderia entrar no automático… Ledo engano! Como uma música que não sai da cabeça, o tempo todo estava lá. Eis que, certo domingo, ensinava seu filhinho a cantar Aleluia! Aleluia! na missa matinal e olhava para o teto da igreja cheio de anjos pintados em um céu cheio de nuvens. Ali estava tranquila, segura, o cheiro do incenso, misturado a uma penumbra, lhe davam segurança e pensava que queria sair daquela vida. Queria, não, precisava sair daquilo, o Zezinho estava ficando grandinho, como ela poderia continuar? Que vontade de sumir. A imagem da Virgem Maria a encarava, tão serena. Sentiu que Ela a compreendeu. O Deus-todo-poderoso não, mas a Virgem entendeu que ela estava fazendo um sacrifício pelo filho. Não era vida fácil! A Virgem a olhava, ela olhava para a Virgem e foi assim que recebeu a luz divina: sentiu que para sair dessa ela tinha que se sacrificar mais ainda, dar sua vida para os céus, tinha que entrar para o convento. Era isso!

Na lanchonete, a mesma Virgem a encarava de frente, dessa vez não em forma de estátua, como naquele dia, mas em um calendário sujo, com “X” nos dias que já haviam passado. Se ela pudesse, não voltaria atrás, faria tudo igual. A Virgem Maria sabia que não fora pecado, fora sacrifício.

Tudo em nome do seu filhinho, até mesmo a entrada no convento bastante conturbada, mas lutou e conseguiu: o padre que fizera o seu casamento viu Zé nascer e se recuperar, convenceu a comunidade religiosa a aceitá-la junto com seu menino, mesmo que não tivesse as exigências da irmandade.[2] Assim, anulou o casamento anterior e casou com Deus. Uma vida monótona, mas digna. Dentro do Colégio das Irmãs estava escondida e segura, sempre perto do filho, podia proteger e orar por ele. Bem longe daquele quarto.

José Otávio tomou o copo de cachaça e virou goela abaixo, sentiu aquela queimação. Queria beber até cair, não queria estar ali, queria desaparecer, se enfiar num buraco e nunca mais sair. Os sentimentos eram confusos entre vergonha, medo, nojo.

– Pode encher mais um, não saio daqui tão cedo.

Abriu um envelope, tirava as folhas e colocava de volta, fez isso três vezes. Na quarta vez deixou os exames com os resultados abertos em cima do balcão. Colocou a cabeça entre as mãos e bateu a testa em cima dos papéis já amarrotados e sujos. Não podia acreditar no que acabara de ler.

Com essa notícia, minha paz acabou, pensava a mãe. Por que resolveram fazer esse exame? Podia morrer sem saber o motivo, de velhice, já vivi muito, tá bom, já dei tudo para ele. Fizeram todos os exames antes de eu entrar, não deu nada. Claro que depois disso eu não iria ao ginecologista. No convento! Pra quê? Todas iriam perguntar. E também, nunca mais tive homem, não sentia dor, nada. Isso mesmo, nada é o que senti. Todos os dias comi direito, com muito arroz, feijão e couve, não tomo nem vinho, durmo cedo para acordar cedo, só rezo. E agora quiseram me revirar do avesso com esses exames?

A cabeça de José Otávio latejava: soropositivo, tarde para coquetel, AIDS. Meu Deus, por que simplesmente ela não morreu?

Ela que sempre agradecia a Virgem, pensando que o golpe não a tinha atingido. Olhava para o calendário, olhava para o filho, queria abraçá-lo. Meu Deus, por que simplesmente eu não morri?

E foi assim que a mãe pegou o saleiro, deu duas batidinhas na ponta da mesa e fez uma neve branca cair naquelas batatas douradas, rasgou um saquinho de catchup, apertando o conteúdo vermelho vivo que foi despejado no canto da porção generosa. Empurrou a travessa em direção ao filho, encarou bem fundo os olhos dele. Zezinho se levantou, caminhou vagarosamente, a abraçou e foi escorregando, se encaixando no colo dela.

Ainda bem que ela ainda está aqui. Ainda bem que eu ainda estou aqui.

 

[1] Golpe. Achava curioso esse termo. Entendia que golpe era um movimento brusco que atingia outra pessoa. Golpe na barriga, golpe de kung-fu, golpe de ar. Agora golpe militar? Sim, fazia sentido. Os militares, veja bem, não apenas um militar, mas um conjunto deles, estavam fazendo movimentos bruscos, atingindo o povo com muita força; seja batendo, prendendo ou espalhando terror. Medo até de dizer que é golpe, mesmo que é isso que se vê. Mas medo mesmo era ter uma solução para minha vida que eles não gostassem.

[2] O padre contou que para se tornar freira não existe uma lei, depende da comunidade onde a aspirante a freira quer entrar. De qualquer maneira, os principais requisitos normalmente seguidos são: a mulher deve ser solteira (viúvas são consideradas solteiras, se já tiver casado anteriormente deve ter o casamento anulado pela Igreja Católica), casar com Deus (ou seja, não ter mais nenhum outro relacionamento, o qual seria uma distração para o chamado de Deus), ter entre 18 e 40 anos, se tiver filhos devem ter mais que 18 anos, tem que ser livre de dívidas e ter a saúde em dia.

1 comentário Adicione o seu

  1. Adriano disse:

    Adorei. Queria que não terminasse!

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