Aquarius, o belo filme que cutuca

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05/09, sábado – Aquarius (2016) – R$ 16,50 – meia-entrada Itaú Cinemas Rua Augusta

Para ler escutando a trilha sonora do filme:

Sábado à noite, a sala lotada, sem nenhuma poltrona vaga e uma calorosa salva de palmas preenche o cinema na Rua Augusta. Eu fiquei ali parada, tentando me recuperar das lágrimas, não sei muito bem se foram de raiva, de alegria, de cumplicidade, de nostalgia, de desespero, ou tudo isso e mais um pouco juntos. Estava esperando que o longa de Kleber Mendonça Filho fosse digno de vencer prêmios internacionais, premiado já em Sydney e Amsterdã, porém não imaginava que eu ficaria ali parada, toda sentimental, querendo já ver o filme de novo, para ter certeza de que eu não perdi nada.

O filme Aquarius, com estreia no Brasil na última quinta-feira, dia 01 de setembro, veio acompanhado de muita polêmica: o longa tem uma temática completamente delatora de situações reais do nosso país, já lutou contra a indicação classificativa do filme ser apenas para maiores de 18 anos e por fim a equipe do filme foi ao festival de Cannes, competindo pelas premiações, e fez uma manifestação política para o mundo inteiro ver, contra o Golpe, impeachment da Presidente Dilma.

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Independentemente da posição política do espectador, o que eu posso dizer é que o filme não é fácil de ser assistido; é aquele filme que mexe, cutuca e incomoda. Retrata uma família de classe média alta atual do Recife e a protagonista é dona de um apartamento no edifício Aquarius, que se nega a vendê-lo para uma construtora demolir e construir um super empreendimento no local. Como o resto dos proprietários já venderam os seus imóveis, a disputa acaba sendo pessoal de Clara (Sônia Braga) e o representante da construtora, Diego (Humberto Carrão).

O filme é muito realista, captado pela minuciosidade do diretor, não deixa nenhum detalhe escapar: a postura da empregada quando está apoiada na pia, a caixinha de chá internacional no fundo da cena, o som da máquina de lavar funcionando sem parar, diálogos fluídos, com expressões e gírias fundamentais e até constatações bastante normais para nossa sociedade (que talvez para uma pessoa de outro país não fosse de tão fácil compreensão), como por exemplo, a partir de uma faixa de areia da praia, um lado é rico e o outro é pobre.

Aquarius (2016)

Com essa riqueza de pequenas particularidades brasileiras, a luta da protagonista, pareceu que era uma luta pessoal minha. Eu poderia estar vivendo naquela situação, poderia ser a minha casa, o meu bairro e uma grande corporação querendo impor o modelo de vida, de valores, instituindo o que eles julgam o que é bom e o que é lixo. Não, eu não tenho um apartamento nessa situação (pelo menos que eu saiba), mas passo por essa tentativa de imposição das grandes corporações e da sociedade, de definir que é certo ou errado e o que é importante na vida, em termos morais, culturais e sociais. A luta de ser quem eu sou, e dar valor ao que eu dou, é algo que defendo todos os dias.

Acrescentando tudo isso à trilha sonora sensacional, à magnífica atuação de Sonia Braga, com um roteiro que prende e desenrola em um final surpreendente, acredito que foi o que fez com que eu ficasse lá, sentada, chorando e sentindo na pele o que a personagem sentiu. Foi emocionante, mas depois dos 145 minutos dentro daquela sala, saí com forças para encarar quem pensa que detém o poder e lutar pelo que eu acredito e pelos meus valores.

Não deixe de assistir. Se possível não espere para ver em casa: vá ao cinema e sinta a energia do som, da sala lotada e da projeção interrupta. Tenho certeza de que você não vai se arrepender. Bom filme.

Aquarius (2016)

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