Conexões entre David Bowie, filosofia e história da arte

Acho muito curioso como existem momentos na vida em que parece que as coisas estão sendo costuradas, que uma fala com a outra, que tudo faz sentido. Chega até a dar um certo medo, parecendo que a vida é igual ao filme “ O Show de Truman: o Show da vida” e que tem alguém por trás fazendo oportunidades aparecerem e as coisas acontecerem.

Sim, muitos podem dizer que o Google, o Facebook e todo nosso comportamento na Internet está sendo monitorado, assim, caso haja interesse por um assunto e eu entrar em sites, clicar, falar sobre isso em chats, outros sites e conveniências do mesmo gênero serão sugeridas para mim. Mas eu não estou pensando em mundo virtual. Estou falando na vida real: o que as pessoas falam, discussões que acontecem e ao mesmo tempo surgem filmes, exposições, aulas sobre exatamente aquele tema em que eu estava pensando. Será que foi o repertório adquirido que fez isso, ou foi o meu manipulador imaginário que conduziu as coisas para se encaixarem?

Esta pergunta espero não ter resposta, pois não quero descobrir que estou dentro de um cenário de um reality show. Mas, posso contar um pouco dessas conexões que fiz e quem sabe alguém possa contribuir ou se identificar com estes assuntos, ou ainda, se informar sobre essas atividades culturais na cidade de São Paulo e também se interessar em participar.

~Poderia falar desde o começo de minha vida, mas esse post se transformaria em um romance, então vou pular para 2016. 😉 ~

Tudo começou com o maravilhoso (sem ser exagerada) curso GRATUITO que participei na Unibes Cultural  de História da Arte Moderna com o Professor Doutor Agnaldo Farias, que em apenas duas linhas consigo dizer que ele leciona na FAU-USP é crítico de arte, foi curador adjunto da 23a Bienal, curador da 25a Bienal e curador geral do MAM-RJ entre 1998 e 2000 (se uma busca simples no Google for feita rapidamente pode-se encontrar suas outras diversas realizações). Foram encontros que proporcionaram uma viagem cultural, sem sair do auditório.

A linha do tempo começou com o Impressionismo e a apresentação de obras de Manet, Monet, Degas, Renoir, Toulouse-Lautrec, Van Gogh, Seurat, Cézanne. Trabalhos maravilhosos que me deixam pasmada. Na segunda aula, passamos para o Fauvismo (Matisse, Derain, Braque). E que incrível, acabei indo na exposição do pós-impressionismo do CCBB que falei neste post. Primeira conexão aleatória que fiz: o Professor Agnaldo apresentou obras desses artistas que eu pude ver ao vivo! Foi impressionante poder conferir o passeio pelas telas dois dias depois da aula.

Chegou o tema do Expressionismo Alemão, diferentemente do Impressionismo, que mostra a cena, este grupo de artistas tinha um papel de subjetividade. Uma arte que chega a ser grotesca, agressiva, sexual, escancarada. Ou seja, o papel do artista é “desafinar o coro dos contentes”, obras de Brücke, Munch, Kirshner, Mendelsoln, Langue, Dix. Esse desconforto traz à tona pensamentos que quebram os paradigmas.

E assim, sem querer, na mesma semana comecei o curso “David Bowie e a filosofia” que quando coloquei os olhos no título, logo me interessei. David Bowie, artista genial, descarece de explicações e, filosofia, visto que estou em um momento de vida estimulante para reflexões, achei que poderia agregar e aprofundar aos meus pensamentos.

Este curso de apenas R$18,00 para credenciados no SESC, ou no máximo R$ 60 para não-credenciados, que também não pagam meia-entrada, foi organizado pelo Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP. A dupla da UFSCar composta pelo Professor Doutor Alessandro Sales e Especialista em arte e filosofia Ciro Lubliner (também uma busca no Google pode fornecer mais detalhes dobre eles), iniciam o primeiro dos 4 encontros com a proposta de pensarmos em uma frase da poetisa Claudia Roquette Pinto: “De que lugar em mim eu verto o meu caos?” e paralelamente a obra de David Bowie foi sendo ressaltada de acordo com os conceitos filosóficos apresentados, trazendo à tona mais perguntas, mas nunca respostas.

E o mesmo desconforto, subjetividade, agressividade que estava sendo explorado no curso de arte é causado e apresentado no curso do Bowie, com o debate sobre o conceito de simulacro. Será que as coisas são assim mesmo? O mesmo conceito sendo falado em duas ocasiões tão diferentes? Ou será que a história só se repete?

Não paramos por aí. O curso de arte foi evoluindo e chegamos ao Cubismo, com Braque, Leger, e claro, não seria necessário dizer que o Picasso foi apresentado. E… eu pude ir na exposição dele que estava acontecendo no mesmo período, falei dela aqui neste post. Foi muita sorte.

O professor Agnaldo ainda abordou as vanguardas positivas (construtivistas) e negativas (surrealismo e dadaísmo), que foram movimentos revolucionários que deixaram a sociedade, os críticos, enfim, todos transtornados. A frase de Maiakovski: “Sem forma revolucionária, não há arte revolucionária”, representa esses movimentos, e convenhamos, é justamente o que David Bowie sempre fez com suas músicas, filmes, clipes, ou seja, com sua arte. Uma das coisas que mais me admira nele é o fato de ele não ter pena de matar personagens para poder chegar em outros lugares. Fazendo isso ele se desloca e nos provoca.

Fica aqui o vídeo clipe de Black Star, derradeira música dele lançada pouco tempo antes de sua morte. Atormenta, mexe, revoluciona:

Eu já estava achando que esses fatos eram mera coincidência, um acaso, e que na verdade eu que acabei escolhendo cursos “parecidos”. Mas foi bastante curioso, pois na mesma semana os dois cursos abordaram Marcel Duchamp! Foi bastante interessante, pois pude ver estudiosos sobre o assunto, tanto arte quanto filosofia, falarem sobre a obra “Fonte”, o urinol. Devo admitir que, apesar do estranhamento, consegui abrir minha mente e enxergar um pouco mais além, percebendo as traquinagens que este artista, assim como David Bowie, fizeram para desafiar a sociedade, a arte, os padrões. Eles avacalham suas próprias obras, mas explodem.

Me senti privilegiada, essas horas dedicadas à esses assuntos me renderam aprendizados, emoções e questionamentos pessoais que já vi repercutir no meu dia a dia. Também pude compreender que a arte e acontecimentos concomitantes emanam mistério, mas colocam meu corpo e alma em movimento.

 

~Estes cursos e exposições acabaram, mas tenho certeza de que outras oportunidades tão boas, ou melhores, virão. Fica o meu convite para checarem os sites da Unibes Cultural e do Centro de Pesquisa e Formação do SESC que tem novidades todos os meses, quem sabe não nos esbarramos? ~

3 comentários Adicione o seu

  1. Marcia disse:

    Que delicia de texto

  2. piatechera disse:

    Essa sindrome de Truman. Falamos sobre isso mas no meu caso foi um menos interessante (Pelezão).

    Meio louco isso.

    1. Caló disse:

      Muito! E eu acho que quanto mais ficamos atentos a esses detalhes, mais aparecem 🙂

Deixe um comentário: