Giro Cultural USP convida um olhar diferente de São Paulo

25/06, sábado – giro cultural usp – R$ 0,00 – Saída metro alto do ipiranga

Cheia dos seus movimentos análogos a cidade de São Paulo, cada dia que passa, consegue me surpreender: a buzinada de alguém estressado que sai à mil no meio do rua, acompanhada da gargalhada de uma criança correndo na calçada. A poluição que dá rinite, sinusite, também traz um por do sol cheio de cor, energia e beleza. Os sons altos, estridentes, ritmados, paulistas, que conseguem me dar até saudade, mas só saindo da cidade e voltando para perceber como, no fim das contas, sentia falta do caminhão de gás, de pamonha, de morangos silvestres. As pessoas, acontecimentos, sons, cheiros, se mesclam, se contagiam e revelam a personalidade dessa cidade tão amada e tão odiada.

Eu sou do time que mais ama que odeia. Acho que por ter nascido aqui, adorar andar a pé e de bicicleta e por ser uma pessoa positiva e otimista, tento sempre aproveitar as ruas e as oportunidades que podem surgir nelas. Ando e observo tudo o que posso, um dia me beneficio pela beleza dos ipês, das primaveras, das tipuanas, dos jequitibás. Outro dia, para olhar e analisar a arquitetura doida, ou aquela dos barões de café, ou a novíssima dos construtores atuais. Ou ainda, para curtir a arte de rua, os grafismos, a moda da rua, as pessoas. Uma terapia. Penso na vida e reparo nos seus detalhes, esquecidos.

A cidade é como um grande polígono, tem muitos ângulos e não é possível, não aguentamos olhar para tudo, o tempo todo. Então, escolhemos o prisma que queremos e focamos nele. Sei que se o ângulo escolhido é o relógio, por estar atrasado para chegar ao trabalho, ou os moradores de rua, a sujeira, o trânsito, não é fácil ver o outro lado. Ainda acho que o pior é o smartphone, mas ele está lá também. Por isso digo que é uma escolha. Somos contagiados por esta maneira de ver e, esta visão é mesclada com o resto da nossa vida, resultando naquilo que somos e qual a nossa relação com a São Paulo que vemos e vivemos.

Há alguns meses descobri o Giro Cultural, um programa incrível da Universidade de São Paulo, uma dessas oportunidades que a metrópole oferece que deixa qualquer um boquiaberto e, que, no meu ponto de vista, ajuda a treinarmos o olhar para essa maneira diferente de encarar a cidade. Descobri também que existem diversos roteiros, mas o que eu fiz foi o “A USP e a São Paulo modernista”. Anh e custa 0,00 Reais. Nadica de nada sai do bolso.

O ponto de encontro não podia ser mais paulistano: 9:45h na catraca da estação de metrô Alto do Ipiranga. Lá, uma equipe formada por uma empresa de eventos, mestrandos e doutorandos da USP aguardam os turistas para que se identifiquem. São grupos em torno de no máximo 40 pessoas, pois somos conduzidos via ônibus de viagem.

Pontualmente às 10h começa o passeio com uma atividade para que todos se conheçam. No último sábado, dia 25 de junho, eu participei e o grupo era composto de diferentes pessoas, das mais diversas faixas etárias: estudantes de arquitetura, artes, enfermeiras, operadores técnicos, aposentados, professores, entre outros, que estavam seja com amigos, família, ou mesmo sozinhos. A maior parte era da cidade mesmo, mas algumas pessoas eram de outras cidades. Uma miscelânea!

Assim começamos, vamos para um ônibus de viagem muito confortável, com ar condicionado e, para entrarmos no clima e voltarmos no tempo, a trilha sonora é Villa Lobos. Os estudantes são os guias e nos chamam a observar os casarões do bairro Ipiranga e vão nos remetendo ao passado, falando sobre a história da cidade.

A primeira parada é o Museu Paulista, conhecido por Museu do Ipiranga, inaugurado em 1895 para ser um monumento para aludir à monarquia, ou seja, ele foi feito para ficar na memória e servir de referência para a nossa sociedade.

Museu_Ipiranga_1

A construção foi feita e depois foi pensado o que poderia ser lá dentro. Primeiramente foi um museu de história natural e em 1922 foi transformado no museu que conhecemos atualmente. Hoje ele está fechado, para restauro e ficará pronto até a comemoração do bicentenário, mas todo o acervo está disponível para visita na Pinacoteca e em casas próximas ao museu.

A guia foi nos dando essas informações, fazendo perguntas, buscando gerar o real interesse na arquitetura e na sua história. Depois voltamos o nosso olhar para o jardim que tem inspiração no Palácio de Versailles, na França. Todo simétrico, organizado, realmente muito bem conservado. Reparamos no chão, com mosaico português, a parte destinada para os skates, as crianças, pessoas praticando exercícios, uma delícia.

Museu_Ipiranga_2Voltamos para o ônibus e conforme passeando pela cidade, nossa atenção é chamada para repararmos na arquitetura, onde era o rio, onde era o parque Dom Pedro. Vemos o museu Catavento, o Mercado Municipal, subimos a rua Ipiranga “Atenção para o primeiro prédio modernista da cidade, com planta livre, projetado por Niemeyer inspirado nas obras de Le Corbusier”, “vejam a praça da República, que antes era a praça dos Touros, pois aqui haviam touradas”.

Paramos no topo do antigo morro do chá para podermos vislumbrar o Shopping Light, que era onde ficava o antigo Teatro São José, e o Teatro Municipal; outro monumento da cidade, que foi inspirado na ópera de Paris, feito para reunir a elite (já que não existia Facebook as pessoas tinham que ir ao Teatro para poder se encontrar e relacionar). Dessa vez, entramos e a própria equipe do Teatro nos conduz e conta toda sua história, como eram dividas as pessoas em “ordens”, dependendo das posses e profissão que tinham, as cores, como funciona o palco, o salão nobre, que também foi inspirado Versailles – no salão dos espelhos. Realmente uma viagem ao passado.

Teatro_Municipal_1

Teatro_Municipal_2

Teatro_Municipal_3

 

Que fome, já é hora do almoço.

Voltamos para o ônibus recebidos com um lanche! Eba.

Vamos em direção ao bairro de Higienópolis, onde nossa atenção é chamada para a arquitetura e a história da Vila Penteado é contada. Seguimos em direção ao MAC-USP e durante o trajeto um documentário sobre a época do Café é transmitido. Chegamos na parada final. Entramos no museu, que foi sede do palácio da agricultura até 1959 e depois virou sede do Detran. E agora, transformado em museu, conseguimos ver sua impressionante estrutura e aproveitar a vista do parque. Que coisa mais linda é essa cidade!

Acaba por aí o nosso passeio às 14:15h e as paradas finais do ônibus são: estação do metrô Ana Rosa ou de volta para o metrô Alto do Ipiranga.

Não é necessário dizer que esse passeio é maravilhoso e que mostra a nossa cidade por um outro ângulo. Claro, apenas passamos por tudo, dentro de um ônibus, mas agora sabemos muito mais sobre a nossa cidade e fica a vontade de se aprofundar e saber um pouco mais da nossa São Paulo. Para se inscrever e aproveitar essa iniciativa, clique aqui.

E para finalizar, me despeço com o poema de Mario de Andrade, “Lira Paulistana”:

“Quando eu morrer quero ficar
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.”

 

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