Marguerite comove o cine festival francês

15/06, quarta-feira – Marguerite (2015) – R$ 12,00 – meia-entrada cinema Cinesala

Muitos me chamaram de louca, mas a maior parte das pessoas me chamaram de corajosa. Como você pode largar o seu emprego em uma renomada multinacional? Vai perder o seu salário, sua previsibilidade, seu status, seu glamour, sua rotina, ainda mais em um país em crise? Realmente você é muito corajosa.

Não, não sou corajosa. Talvez eu seja observadora. Comecei a perceber o mundo, a pensar na passagem da vida, na efemeridade das coisas. Posso dizer que é um momento de vida que não é agradável. É duro. Conduz a algo que vem de dentro, que grita, que corrompe, que faz querer.

O dia a dia não combina mais, é algo que chega assim, aos poucos, devagarinho. Começa com um desânimo de aguentar o dia, depois vem seguido de excessos (na situação de uma boa sagitariana, muitos excessos); alimentares, etílicos, consumistas, sentimentais, de todos os tipos. Servem para, de certa forma, distanciar do real. Até que a mente começa a consumir e dá insônia, dá briga, dá raiva, dá descontrole. E, por fim, o corpo fala: idas ao hospital com náuseas, sinusite, gripe, alergia, ganho de peso, cabelos brancos, rugas.

Quem está de fora pensa que é uma decisão fácil, sem mais nem menos, de repente. Mas não, não é rápido. Ela chega assim, lentamente, até o momento de explosão e grito de mudança. De seguir a intuição e ir atrás de outro mundo dentro deste mudo, de outros conceitos, mesmo que as portas ainda estejam fechadas a sete chaves.

Essa porta também vai sendo aberta lentamente. É preciso ter paciência e como diria Jostein Gaarder “Aquele que quer se encontrar deve continuar bem onde está. Do contrário, é grande o risco de se perder para sempre.”. Agora é a hora de ficar e tentar, de revelar sentimentos, de provar o que se pensa que quer, de não conseguir, de levantar e tentar de novo.

Me identifiquei com a personagem Marguerite do filme de 2015 de Xavier Giannoli, que leva o nome da protagonista. Diferente de mim, ela é afortunada e vive em um palácio nas redondezas de Paris na década de 20. Mas como eu, ela vai atrás do seu sonho, mesmo sem ter nenhuma das sete chaves da porta.

Cena do filme Marguerite (2015). Imagem do Google.
Cena do filme Marguerite (2015). Imagem do Google.

A história real foi dramatizada pelo diretor e Catherine Frot interpreta Marguerite Dumont de forma comovente. Esta rica mulher é apaixonada por música, principalmente ópera, e canta regularmente para seu círculo de amigos. A grande questão é que ela canta hilariantemente mal. Desafinada mesmo. Porém, ninguém fala isso para ela, as máscaras usadas são melhores aceitas, do que “desafinar o coro dos contentes”, como diria Torquato Neto.

A trama segue, criando situações cômicas e, ao mesmo tempo, profundamente tristes, iguais a da vida de cada um. Marguerite, humanamente faz o papel de ridícula e outros se beneficiam com sua derrota. Essas relações são complexas, existe o respeito pelo poder, mas o total desrespeito com a mentira escancarada. A produção não falha em reconstituir a época e, de forma magnífica e leva o expectador a mergulhar nesse universo.

Cena filme Marguerite (2015). Imagem do Google.
Cena filme Marguerite (2015). Imagem do Google.

Esta comédia dramática chegou no Brasil através do Festival Varilux de Cinema Francês que está acontecendo em todo o Brasil desde 8 de junho e vai até dia 22, próxima quarta-feira. São 15 filmes inéditos e mais um grande clássico do cinema francês em 50 cidades brasileiras. Uma iniciativa maravilhosa, que tem por objetivo difundir a cultura francesa no país.

Eu, na iminência de me afrancesar e achar uma das chaves da porta fechada, fui em um cinema de rua com apenas uma sala, o Cinesala, que existe na Rua Fradique Coutinho, em Pinheiros, desde 1962. Cinema que contribui para aproximar, mais ainda, o filme de quem o está assistindo. Parecia que a Marguerite estava lá me dizendo “allez-y, vous pouvez!”

Cinesala. Imagem do Blog da Caló.
Cinesala. Imagem do Blog da Caló.

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