Por que tenho um crush com Picasso

03/06, sexta-feira — Instituto Thomie Othake Exposição Picasso: mão erudita, olho selvagem — R$ 6,00 (meia-entrada)

A discussão que se iniciou após observarmos as maravilhosas obras do Picasso foi a de não haver postais à venda na lojinha do museu:

– Lojinhaaaa!!! — diz meu irmão

– Eba! Vamos comprar postais — completa minha mãe

Entramos no apertado espaço e, infelizmente as lojinhas não são parecidas com a do velho continente. Procurávamos um simples cartão postal com a réplica de alguma das obras expostas, um marcador de livros, um lápis ou caderneta. Mas, infelizmente só haviam livros que nada tinham que ver com a exposição (por mais de 50 dindins), DVDs parados e outras bugigangas. Uma pena.

Não, não pense que eu queria que fosse semelhante a uma das lojinhas localizadas estrategicamente após sair de um brinquedo na Disney, mas ter um material residual para levar para casa e recordar os momentos vividos na exposição são tão legais.

Eu adoro postais, quem já veio em minha casa pode comprovar que a parede da sala é repleta deles e relembram momentos muito especiais que eu já vivi. Em especial, tenho postais do Picasso, acho que porque esse pintor faz parte da minha vida, temos um “crush”.

Acredito que o nosso relacionamento começou quando eu estava na faculdade e tive a oportunidade de morar na Espanha durante um ano, mas acabou que eu fiquei “só” morando em Madrid por um mês. Eu falo “só” porque foram exatos trinta dias inteiros que eu não tinha nada para fazer; meus amigos trabalhavam e eu estava esperando a data da minha passagem de volta para o Brasil chegar. Estava apoleirada na da casa da minha amiga, vulgo morando de favor, pois eu não tinha dinheiro para absolutamente nada, só tinha o suficiente para comprar tapas (que lá não é gourmet, é barato mesmo) e vinho (que é mais barato que água).

Sendo assim, naquele setembro, percorri a cidade a pé de cabo a rabo, já que não podia comprar passe de metrô e não me sentia muito à vontade dentro do apartamento o tempo todo. E, como a vida é, acho que foi uma das experiências mais valiosas que eu já tive: eu reparava nas pessoas, nas ruas, nas coisas, observava tudo aos detalhes. E, numa dessas, o Museu Centro Nacional Centro de Arte Reina Sofia virou um dos meus passeios preferidos.

Lá dentro tem “a” obra do Pablo: Guernica. Em 1936 Picasso se engajou e envolveu em projetos para o desenvolvimento da arte a da cultura do governo da Frente Popular da França, e no ano seguinte, pintou este painel (ele mede 3,5m de altura por 7,82m de largura) como reação ao bombardeio sofrido pela cidade basca que a aviação nazista realizou em 26 de abril de 1937.

Picasso: Guernica, 1937. Imagem do Google.
Obra de Pablo Picasso: Guernica, 1937. Imagem do Google.

Exposta no pavilhão espanhol da Exposição Universal deste ano, em Paris, a obra se torna ícone da luta contra a barbárie política e contribui com a história contemporânea. É descrita pelo artista com a ilustre frase:

“Como seria possível não se interessar pelos outros homens e, com total indiferença, afastar-se da vida que eles oferecem com tanta abundância! Não, a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo.”

São Paulo recebe, no Instituto Tomie Othake, obras que foram doadas pelo pintor para o Musée National Picasso-Paris. Uma mostra que abrange todas as fases e técnicas da produção artista e é possível ver a genialidade e intimidade Picassiana, nesse espaço, até 14 de agosto.

Eu falei aqui sobre a Guernica, mas quem quiser admirá-la pessoalmente terá que ir até Madrid, pois no Tomie Othake podemos ver a coleção do próprio Picasso. Mas não desanime, para quem tiver interesse e tempo, a exposição traz um documentário (duração de 15’) de Alain Resnais e Robert Hessens que de forma impactante ajudam o expectador a enxergar toda a composição desse painel.

Com música impactante, instalada em uma sala escura, a projeção faz sentir o terror da época. Para mim trouxe angústia e ao mesmo tempo relembrou meus bons dias de estudante, como que em uma nostalgia. Acho que deve tocar as pessoas mesmo, pois o clima da sala chega a ser sombrio.

Aqui você pode ver um trecho e sentir o gostinho dessa sensação, mas acredito ser spoiler. Quem puder ir até Pinheiros, sugiro não colocar o play:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=eDeBu8HwUOw]

Para dar um gostinho, a exposição se inicia com uma obra que Pablo pintou quando tinha apenas 14 anos e fecha com uma obra finalizada no fim da vida do pintor. Curiosamente a obra inicial é de um senhor (L’Homme à la casquete, 1895) e a final é de uma criança (Le Jeune peintre, 1972), como se tudo fosse um ciclo.

Obras de Pablo Picasso: Imagens do Blog da Caló.
Obras de Pablo Picasso: Imagens do Blog da Caló.

A curadoria da exposição conduz de maneira cronológica as fases dos trabalhos do artista: Exorcista, Cubista, Clássico, Surrealista, Engajado, Na resistência, Múltiplo e Último Picasso.

Obra de Pablo Picasso: Deux Femmes courant sur la plage, 1922. Imagem do Google.
Obra de Pablo Picasso: Deux Femmes courant sur la plage, 1922. Imagem do Google.
Obra de Pablo Picasso: Le Repas frugal, 1904. Imagem do Google.
Obra de Pablo Picasso: Le Repas frugal, 1904. Imagem do Google.

Eu me considero suspeita para falar, mas diversas obras me encantam e a organização da exposição ajudam o visitante a refletir sobre as complexas e diferentes obras de Picasso em toda sua metamorfose. Fica meu convite, vá até lá e se encante.

Obra de Pablo Picasso: Homme à la guitare, 1911. Imagem do Google.
Obra de Pablo Picasso: Homme à la guitare, 1911. Imagem do Google.

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