Histórias da Infância no MASP

31/05, terça-feira — MASP: Exposição Histórias da Infância — R$ 0,00

Sempre gostei do MASP, não sei se porque ele é símbolo da cidade de São Paulo, com seu vão de mais de 70 metros, marco arquitetônico do século XX, que traz um respiro para a conturbada metrópole ou porque é um dos museus que mais lembro de ir com minha mãe e meus irmãos, quando éramos crianças.

Acho que uma vez que mais me recordo foi um aniversário da minha mãe. Ela nasceu no dia 8 de julho, ou seja, durante as férias escolares. Então, a aniversariante, uma típica canceriana “família”, tirava o dia de seu aniversário de folga para ficar conosco e sempre fazíamos coisas que ela gostava, como ficar juntos, passear, comer.

Num ensolarado, mas frio, 8 de julho, que eu deveria ter por volta dos meus 10 anos de idade, ela nos convidou para ir ao MASP. Lembro-me do caos da avenida Paulista, do vento, e de repente, entrar naquele ambiente de paz e admiração. Obviamente, apesar das férias escolares, e principalmente naquela época, em uma manhã de dia de semana, o museu era praticamente nosso.

É curioso, pois em 1996 foi quando os famosos cavaletes da Lina Bo Bardi foram substituídos por paredes. Segundo o arquiteto e coordenador de exposições do museu da época, os cavaletes eram como instalações e as novas “salas” dariam uma visão mais global das obras. E, agora em 2016, a nova direção da instituição, com uma visão contrária, celebra a transformação do acervo, trazendo de volta os famosos cavaletes de vidro, dando uma noção muito mais ampla da arte exposta.

Então, fui até o MASP em uma terça-feira, pois é o dia de entrada gratuita com dois intuitos, ver o acervo em sua forma “original” e prestigiar a exposição Histórias da Infância, que vai até dia 31/07. Claro que eu não consegui. Me “perdi” no acervo e nas obras e voltei novamente ontem para ver a exposição. Mas estou contando sobre tudo junto, pois sei que existem observadores bem mais rápidos do que eu, e conseguem ver tudo em uma tacada só.

De qualquer forma, para mim foi um baque, pois eu não lembrava do museu com cavaletes, apenas com as paredes e realmente, parece outro lugar. A minha sensação foi que as obras falam entre si e que o local também, de certa maneira, faz parte da obra. Outro aspecto que eu notei foi que a conversa entre o expectador e o quadro é apenas entre os dois, a influência do curador, ou até de outros (escassos) visitantes é mínima, pois você acaba ficando sozinho na frente da obra e as informações técnicas, ficam atrás da tela, ou seja, caso exista curiosidade você deve ler após admirá-la, ou se você for do tipo rápido, apenas passar por ela.

Masp: Cavaletes de Vidro. Imagem do blog da Caló.
MASP: Cavaletes de Vidro. Imagem do blog da Caló.

Descendo um pavimento, a exposição Histórias da Infância me faz lembrar daquele 8 de julho, pois foi como se eu retornasse ser criança. Essa mostra busca levar o visitante à se entregar para um outro ponto de vista, tentando enxergar o mundo de forma diferente, pelo olhar de um pequeno: as obras foram colocadas em até 30 cm em relação à convenção do eixo de visão do espectador nos museus. E como muda! Acho que uma das coisas mais engraçadas foi ver quem queria tirar fotos, ter que abaixar para enquadrar o quadro, e até algumas pessoas mais interessadas se sentarem para poder observar melhor.

Outro aspecto que colabora com o clima infantil é causada pela obra “Wa” do libanês Ziad Antar: um vídeo de 1’57’’, em repetição, que mostra seus filhos cantando o “Wa”. A ampla sala ecoa o som das crianças cantando e que de início, para mim, causaram certo incômodo, mas que depois entraram como uma meditação.

Neste ambiente a exposição é organizada de forma diferente, desrespeitando hierarquias e territórios dos acervos, mas as agrupando por sub temas que as crianças estavam presentes: natividade e maternidade, representações de família, imagens de educação, brincadeiras, crianças artistas, crianças anjos e, por fim, a morte.

Eu achei muito interessante e me relembrou uma exposição que tive a oportunidade de ver na França, chamada “Joie de Vivre”, na qual mostrava momentos da alegria de viver, tais como sorriso, família, sexo etc. E, não sei se eu que não tinha reparado, mas eu nunca tinha ido a uma exposição com a organização assim, por tema. Acho que é positivo no sentido em que cria um pensamento sobre o assunto e não apenas a observação das obras, inserindo-as em um período, ou em uma “classificação” dentro da história da arte, mas sim sobre aquele conteúdo. O MASP já fez uma exposição nesse formato em 2015 (Histórias da Loucura e Histórias Feministas) e vai reunir diferentes histórias, nesse formato, até 2018.

A exposição “Histórias da Infância” mostram as crianças em diferentes tempos, mas em situações “iguais”. Logo na entrada a recepção é feita pelas obras “Rosa e azul — As meninas Cahen d’Anvers”, de Renoir, e “Sem título (da série Brasília Teimosa)”, de Barbara Wagner que ressaltam esses contrastes.

MASP: Histórias da Infância. Foto Divulgação MASP.
MASP: Histórias da Infância. Foto Divulgação MASP.

A obra de Di Cavalcanti, “Menino com galo brincando”, de 1963, está na seção “Brincadeiras”captou o meu olhar. Alguns dias antes eu havia assistido no Netflix o seriado “Master of None” e no episódio “Parents” em que há uma cena em que o pai do protagonista tem como animal de estimação, um frango. O interessante é que a representação de carinho e amizade no olhar desses garotos para suas aves é igual, seja em uma tela da década de 60 ou em uma série de 2015 e comovem qualquer expectador.

Obra Di Cavalcanti e Cena Master of None. Imagens do Blog da Caló.
Obra Di Cavalcanti e Cena Master of None. Imagens do Blog da Caló.

Acho que essas conexões entre o que pode ser visto no museu e o que vivemos fora dali é o que deixa este passeio tão delicioso: passando por diferentes sentimentos, relembrando sensações, comparando histórias entre si, inclusive as próprias. Um convite para olharmos para uma fase da vida tão importante, representada através de diferentes olhares, traz à tona memórias individuais e coletivas.

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