Filme de Tom Ford é obra de arte

Domingo – 03/04 – A Single Man (Netflix) – R$ 0,60 por dia

O simples fato de cruzar com alguém na rua, ou se alguém que mantém o mesmo passo, o vento a mais, o vento a menos, o calor, o fio do fone enrolado, a música escolhida, o volume da música, os carros que não param de passar, o barulho do ônibus, o coco do cachorro, o sapato que machuca, a bolsa que escorrega, o bilhete único que não funciona, o motorista que breca, a pessoa que olha, a pessoa que não olha, o desequilíbrio, o sol, a pessoa parada ao lado esquerdo da escada rolante, o elevador lotado, a bolsa da perua encostando no meu braço, a pessoa sentada na minha cadeira, ar condicionado congelante, o tom de voz, o fato de ter que sorrir, a falta de sorrisos, a fila do quilo, a comida fria, a pessoa que come de boca aberta, o mau hálito do chefe, o telefone que toca incessantemente, o grupo de WhatsApp que tem mensagens machistas seguidas por risadinhas: ~brincadeira!~, a reunião que atrasa, a cobrança da presença, a falta de bom senso.

Depois de um dia inteiro em que grandes conquistas e planos parecem ser tão importantes – o trabalho, as vendas, a campanha, a mídia, o salário – acaba diferente. O que na verdade deu para sentir foi o detalhe. Esses pequenos momentos, esses sentidos sendo reparados, poderiam ter sido totalmente opostos, poderiam ter sido prazerosos, aproveitados, sentidos de outra forma.

Eu reparei nisso, nesses pensamentos e momentos depois de assistir “A single Man”, em português traduzido para “O direito de amar” no Netflix. Eu não vou ser stalker do filme dirigido por Tom Ford, mas posso contar que a história é baseada em um único dia totalmente infeliz de George Falconer (personagem de Colin Firth) e de todos os seus micro momentos, desde preparar um café, um flerte, uma frase atravessada.

Em minha opinião esse é um daqueles filmes obra de arte, pois cada cena poderia ser transformada em uma pintura, tinha vontade de tirar foto da tela, de ficar vendo e revendo as cenas, prestando atenção em todas as vírgulas de cada fala.

Cena do filme A Single Man. Imagem obtida no Google.
Cena do filme A Single Man. Imagem obtida no Google.

Acho que o que foi tão tocante, primeiramente pela beleza estética e conjuntamente pela maneira que os sentimentos do George foram mostrados, que as coisas que se parecem banais podem ser as principais, na verdade. Desta forma, voltando para irritabilidade, para aquilo que incomoda, para um dia infeliz, o pensamento de como fazer para jogar para fora essa sensação e transformá-la em coisas positivas, em algo que não irrite.

Eu tenho tentado sentir, assumir que esta é a sensação e pensar sobre isso. Reflito que isto pode parecer pequeno, dentre todas as tragédias do mundo, de todo o sofrimento nas ruas, mas essa é a minha tragédia, o meu sofrimento. E somente eu posso transformar a estação do metrô em cenário para o meu filme.

Cena do filme A Single Man
Cena do filme A Single Man. Imagem obtida no Google.

 

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